Roberto Ricardo de Amorim

Ricardo com os pequenos do Batucar, que já se apresentaram até em Cabo Verde, na África

Ricardo com os pequenos do Batucar, que já se apresentaram até em Cabo Verde, na África

Ricardo é responsável pela criação do Batucar, instituto que já beneficiou mais de 80 crianças de baixa renda do Distrito Federal

Tendo a dança como pano de fundo, o Instituto Batucar, instalado no Recanto das Emas, área carente do Distrito Federal (DF), tem transformado a realidade de crianças e jovens de baixa renda. Criada por Roberto Ricardo de Amorim, 43 anos, a entidade realiza um trabalho pautado na promoção do resgate da integridade pessoal e da melhoria da qualidade de vida, utilizando a percussão corporal como ferramenta de inclusão social.

As atividades começaram em 2001 e soma 80 pessoas beneficiadas. “O primeiro desafio foi mudar o paradigma que tínhamos de educação musical, centrada na utilização de instrumentos convencionais, uma vez que faltavam recursos financeiros para comprá-los. O uso da percussão corporal, que a priori, era uma ferramenta alternativa, revelou-se o eixo central da proposta”, lembra Amorim. No início, o trabalho mobilizou doze jovens, mas a aceitação foi tão positiva que no ano seguinte, 20 pessoas já participavam das oficinas de dança.

Ricardo recorda que na época os jovens não tinham muitas opções de lazer e apresentavam uma defasagem na educação escolar. Segundo ele, nesse período foi realizado um trabalho para investigar as possíveis causas dos problemas escolares, o que detectou uma grande lacuna no processo de alfabetização. “Aumentamos os dias de atendimento para mais dois dias da semana, exclusivos para atividades de aprendizagem”, diz.

Esse cenário moldou os objetivos do Batucar que hoje são apoiados nas premissas de inserção das crianças e jovens em um programa gratuito de arte e educação; e diminuição dos índices de evasão e repetência escolar por meio de aulas de reforço diárias, para todos os alunos do programa. “Nossa meta é garantir a aprovação escolar de no mínimo 85% dos alunos participantes do projeto, além de promover a educação socioambiental, a prevenção contra o uso drogas e a preservação da saúde”, enumera.

Os resultados são diversos. Entre eles, quatro dos primeiros participantes atuam hoje como monitores e são remunerados. Com os recursos das bolsas eles ingressaram no Ensino Superior. “Temos universitários em Psicologia, Sistemas de Redes para Internet, Administração, Publicidade, além de uma pedagoga formada e pós-graduando em Psicomotricidade. Passamos de um atendimento inicial de três horas para 40 horas semanais”, destaca Ricardo Amorim. As atividades incluem atualmente 12 profissionais e os quatro monitores e a meta para o segundo semestre é ampliar o quadro para 22 colaboradores diretos.

Mas segundo o coordenador e criador do instituto, os retornos sociais são imensuráveis. “Em nossa trajetória, os momentos emocionantes estão ligados aos marcos de superação de dificuldades que vão desde a conquista de melhores condições estruturais, a realização de espetáculos especiais, onde se intensificam as ações de montagem e ensaios. Todos trabalham para uma realização comum”, fala.

Entre esses momentos, ele destaca a experiência que tiveram em Cabo Verde (África), onde realizaram durante uma semana de julho de 2009 oficinas para crianças, adolescentes e formadores de entidades sociais. “Foi emocionante a aceitação dos caboverdianos em relação a nossa proposta. Pudemos compartilhar as técnicas empregadas na percussão corporal, como também, falar um pouco de nossa experiência do trabalho de inclusão e empoderamento comunitário no Recanto das Emas”.

Neste ano, a entidade está envolvida no projeto “Coisa de Criança”, lançado em março e que, até novembro, promoverá oficinas de percussão corporal gratuitas para a montagem do espetáculo que levará o mesmo nome do projeto. A pesquisa para a produção da mostra tem como tema a relação das crianças e dos adolescentes com a atualidade. O roteiro será composto por músicas inéditas, e, a performance final do grupo será a síntese dos dez meses de vivências em oficinas de corpo, voz e movimento. O projeto contará ainda com a participação de educadores renomados, entre eles Fernando Barba, do Grupo Barbatuques de São Paulo, que atuará como facilitador em percussão corporal e diretor musical.

Para os próximos anos, o instituto planeja implementar seis núcleos de percussão corporal no DF e se tornar um centro de referência em formação musical a partir da MPB e em preparação vocal. “Queremos anunciar em 2020 a consolidação de um centro cultural, com uma sede no Recanto das Emas, com núcleos de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias em arte/educação e formação de profissionais. O centro possuirá uma estrutura física com espaços apropriados e equipados para o desenvolvimento das atividades, além de um teatro com capacidade para 400 pessoas. Pretendemos estar com cinco mil alunos matriculados gratuitamente”, planeja.

Atualmente, a entidade conta com as parcerias da Secretaria de Cultura de Brasília e do Laboratório Sabin, que apóiam financeiramente o instituto, além do Centro de Apoio e Desenvolvimento Tecnológico (DTN), da Universidade de Brasília (UnB). Para captação de recursos, a entidade também faz apresentações e produz camisetas e DVDs para comercialização.

Ainda de acordo com o coordenador, os aprendizados ao longo desses anos são inúmeros e o ideal é saber aplicar a experiência adquirida às novas demandas que surgem diariamente. “Quando se trabalha num contexto de múltiplas carências vivemos muitas frustrações. Isso está no cardápio de todos que abraçam uma causa social. O diferencial está na consciência de que todo o trabalho precisa ser contínuo, de longo prazo. Assim, ao longo dos quase nove anos de projeto, verificamos que as decepções se tornam em ferramentas de aprendizagem, que nos ensinam a redirecionar e lidar com nossas expectativas”, conclui Ricardo Amorim.


Instituto Batucar - Telefone: (61) 8419-9701 - Endereço: QD 307 conjunto 3 lote 9 – Recanto das Emas

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