Tratamento em risco

Aposentadorias da área de C&T no País podem prejudicar o estudo de radiofármacos, responsável por diagnosticar o câncer

Aposentadorias da área de C&T no País podem prejudicar o estudo de radiofármacos, responsável por diagnosticar o câncer

Diagnóstico e tratamento de câncer no Brasil podem ser prejudicados pela falta de profissionais de C&T

Uma das doenças que mais mata no Brasil hoje é o câncer – nome dado a um conjunto de mais de 100 males que têm em comum o crescimento desordenado (maligno) de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase) para outras regiões do corpo.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, a enfermidade está em segundo lugar de mortalidade dos brasileiros. Mais de 12,7 milhões de pessoas são diagnosticadas todo ano com câncer e 7,6 milhões de pessoas morrem vítimas da doença.

Os dados acima são alarmantes, mas na opinião de representantes da área de ciência e tecnologia (C&T), eles podem aumentar caso o governo não invista na formação de recursos humanos para área de ciência e tecnologia (C&T).

Alguns institutos de pesquisa do País, responsáveis pelo estudo e desenvolvimento de radiofármacos – substância que pode ser utilizada no diagnóstico e tratamento patologias e disfunções do organismo – podem parar de atuar em razão da falta de profissionais. Entre eles o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), o Centro de Desenvolvimento de Tecnologia Nuclear (CDTN) e o Instituto de Energia Nuclear (IEN).

De acordo com o secretário executivo do Fórum Nacional de Entidades Sindicais para Carreira de C&T (SindCT) , Ivanil Elisário Barbosa, a C&T no Brasil encolheu 75% e o quantitativo da carreira hoje é de 23 mil pessoas – entre aposentados e ativos. Ele frisou que apenas 3.851 estão na ativa e quase 50% desse efetivo estão próximos da aposentadoria.

Barbosa afirma que em curto prazo, dentro de oito anos, os institutos não vão ter capacidade operacional. “Vamos entrar em colapso. Nós vamos parar. No Brasil estão jogando a C&T na lata de lixo. Quando vamos acordar para isso? Toda carreira está nessa condição”, alertou.

O desabafo do secretário executivo ocorreu durante a audiência pública na Câmara dos Deputados, na quinta-feira (19), que debateu sobre a recomposição dos quadros das instituições de ciência e tecnologia.

Para Barbosa, o caos que se construiu ao longo dos anos é em razão da ausência de políticas de manutenção da força de trabalho dos institutos. Ele explicou que o servidor público de C&T tem hoje idade avançada. “Não dá para acreditar que a administração pública não sabe quando o contingente de um órgão vai aposentar? Concurso são feitos sem planejamento, sem padrão. A escassez de recurso humano é inadmissível”, lamentou. E finalizou “A atividade de C&T é agregadora de inovação, mas o governo insiste em não prestigiar. Ninguém transfere tecnologia. Nós é que temos que produzir internamente no nosso País”.

A carência de pessoal é pauta constante no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), afirmou o subsecretário de planejamento Flávio Coutinho. Para ele a situação é realmente grave, uma vez que a atividade de pesquisa é contínua, não pode parar. “ Se o pesquisador morre ou se aposenta, aquela atividade tem que ser seguida. O fato de uma pesquisa ser interrompida significa que ela tem que começar de novo”, disse.

O subsecretário observou que a ciência não se faz sozinha e sim em redes. “Se ela foi interrompida ou parada vai impactar não só o desenvolvimento da pesquisa e a economia, mas na imagem do País no quesito cumprir acordos”.

Flavio Coutinho contou que há dois anos o MCTI recebeu um manifesto de todos os diretores de unidade de pesquisa ligados ao ministério alertando sobre a falta de pessoal. A carta pedia uma pronta providência na admissão de novos concursados, pois caso não entrassem mais profissionais, muitos laboratórios seriam altamente prejudicados e programas estratégicos acabariam. “Levamos o pedido ao Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG), que na ocasião repôs apenas os cargos que já estavam vagos”.

Segundo dados do Sistema de Informação da Administração Pública (Siape), hoje há uma defasagem de 31% dos cargos que estão vagos dos institutos ligados ao MCTI. “Corremos sempre atrás do MPOG e a reposição só ocorre quando acontece a vacância. Mas o processo é lento e quando ocorre, o concursado já escolheu outro órgão. Nessa demora, 20% dos aprovados na carreira de C&T já saíram para outras carreiras mais vantajosas na administração pública”, explicou.

Para o diretor de engenharia do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Guilherme Sales Melo, o problema da área é claro, principalmente porque a carreira não é tão atrativa quanto outras. “A baixa remuneração afasta os candidatos e até mesmo os profissionais que estão atuando na área. É uma questão crucial de uma área crucial para o País”, finalizou.

O deputado federal Izalci Lucas (PSDB/DF), autor do requerimento, se mostrou decepcionado com a ausência de representantes do MPOG na audiência. “Infelizmente nós sabemos que nada vai mudar sem o ministério. Vou tentar aprovar um requerimento de convocação para que o MPOG compareça no próximo debate. Nada vai andar se não o sensibilizarmos. Só assim vamos evoluir”.

Para o secretário executivo do SindCT um dos agravantes para falta de pessoal na área de ciência e tecnologia tambérm é o perfil do servidor, que para ele é bem específico. “O profissional demanda mão de obra especializada, muito tempo e investimento em sua formação, ou seja, não sai pronto da universidade. Ele tem idade média de 51 anos, o que indica que está próximo da aposentadoria e não tem como transferir seu conhecimento”, descreveu.


Responsabilidade Social com informações da Agência Gestão CT&I

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