Perseverança e microcrédito: ingredientes para ser dono de uma oficina de sucesso

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Apaixonado por carros desde criança, o mecânico Donizete Ferreira da Silva, de 50 anos, aprendeu seu ofício observando o trabalho de outros profissionais. “Sempre gostei de automóveis. Consertava o meu, depois comecei a resolver problemas nos veículos de vizinhos e de amigos; com o tempo, fui me aperfeiçoando”, conta. Nascido em Arco-Íris, uma pequena cidade do interior de São Paulo, mudou-se ainda jovem com os pais e três irmãos — um engenheiro, um promotor de vendas e um advogado — para Mauá, cidade da região metropolitana da capital paulista. Sua oficina, a Speed Peças e Serviços, fica no Jardim Lisboa e tem clientela cativa: faz cerca de 200 reparos por mês. Para chegar a esse patamar, Donizete colecionou muitas histórias e até um prêmio internacional.

Aos 27 anos, ele resolveu concretizar o desejo de ser dono do próprio negócio. Foi quando deixou o emprego em uma oficina e passou a executar serviços na garagem de casa. Pouco depois, alugou um ponto, onde permaneceu por uma década. Devido à desapropriação do terreno, teve de baixar as portas. “Eu me compliquei por falta de planejamento, mas consegui recomeçar”, lembra.

Foram alguns meses consertando carros no meio da rua ou na casa dos clientes, até que alugou outro imóvel, que também não o levou ao sucesso. “Na época, eu não tinha qualquer acompanhamento das despesas e o aluguel era elevado. Tive de fechar de novo.” Era hora de mudar. Então, buscou aperfeiçoamento pessoal em cursos e palestras focadas em habilidades profissionais e na gestão da oficina. Um segundo componente ajudou a dar novo rumo para sua história: o microcrédito, decisivo para resolver situações inesperadas e expandir.

Ferramenta excelente

Em 2009, Donizete estruturou a Speed Peças e Serviços da maneira como funciona atualmente. Foi também quando utilizou recursos do microcrédito pela primeira vez. “Recebi um folheto e um amigo esclareceu como funcionava. Procurei o Banco do Povo para entender melhor e acabei entrando para uma modalidade em que um grupo de empreendedores se reúne para obter financiamentos em conjunto e todos devem garantir os pagamentos”, conta.

Daí em diante, o mecânico passou a utilizar essa opção para compor seu estoque de peças automotivas. “Quase todo o dinheiro que já peguei emprestado foi para comprar mercadoria. Mas também empreguei na reforma das instalações depois de uma enchente há cerca de quatro anos”, recorda. Na época, ele teve de trocar o piso do salão, fazer nova pintura e ainda arcar com a higienização especial de todos os carros que estavam sob seus cuidados no dia do alagamento.

Nos bons e nos maus momentos, Donizete explica que o microcrédito é uma excelente ferramenta, desde que usada corretamente. “Posso pegar até R$ 7 mil por operação, mas não costumo ultrapassar os R$ 3 mil para não ficar com uma dívida grande. E utilizo apenas para investir no meu negócio. Algumas pessoas pagam dívida com esse dinheiro, e aí não dá certo”, ensina.

A Speed é especializada em injeção eletrônica e oferece, ainda, ampla variedade de serviços. Ao todo, são quatro pessoas na equipe, além do proprietário, que continua a sujar a mão de graxa com muito gosto. “Tem dia que é muito corrido, e a gente acaba trabalhando até de madrugada.”

Em 2014, veio um reconhecimento inesperado: Donizete venceu o Prêmio Citi Melhores Microempreendimentos, na categoria de faturamento até R$ 360 mil. “Na hora em que minha agente de crédito me deu a notícia, achei que fosse brincadeira. Depois que vi que era verdade mesmo, fiquei muito satisfeito”, relata. O mecânico conta que usou os R$ 8.500 do prêmio para viajar e, mais uma vez, ampliar a empresa. “Tirei merecidas férias, mas também apliquei parte do dinheiro para adquirir o terreno que fica ao lado do meu estabelecimento”. A construção já começou. O plano é ter um espaço comercial mais completo.

Capacitação e solidariedade

Donizete é casado com a cabeleireira Maísa e tem seis filhos. Dois deles — Murilo, de 26 anos, e Vitor, de 21 — trabalham ao lado do pai, com quem aprenderam muito do que sabem. O ensino do ofício ele também estende a outros interessados. Há cerca de quatro anos, oferece cursos gratuitos de mecânica para jovens da comunidade. As aulas acontecem todos os sábados à tarde na sede da Speed. A ideia surgiu da observação de uma necessidade do bairro: “Percebi que tinha muito adolescente sem profissão nas redondezas e resolvi ajudá-los”. Mais de 50 jovens já se beneficiaram da iniciativa. Alguns abriram negócios próprios e dois foram trabalhar na Speed.

Além do curso gratuito de mecânica, Donizete também se preocupa com o destino dos resíduos gerados na oficina. Ele recolhe o óleo de motor e as baterias usadas dos clientes e vende para uma empresa de reciclagem. Com o valor arrecadado, compra cestas básicas e distribui para quem precisa. Os demais materiais recicláveis são recolhidos por uma cooperativa de catadores vizinha.


Para reconhecer histórias assim — em que o microcrédito foi decisivo para incentivar projetos de vida —, a décima edição do Prêmio Citi está com inscrições abertas até o dia 5 de fevereiro de 2016, no site www.pcmm.com.br. Trata-se de uma oportunidade especial para empreendedores, agentes de microcrédito e instituições de microfinanças de todo o Brasil.

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