Claudia Werneck

Crédito da foto: Marcelo Correa

Crédito da foto: Marcelo Correa

Claudia Werneck é carioca, jornalista formada pela UFRJ, com especialização em Comunicação em Saúde pela FIOCRUZ. Idealizadora da Escola de Gente – Comunicação em Inclusão, é pioneira na disseminação do conceito de sociedade inclusiva proposto pela ONU no Brasil, e nos demais países da América Latina, desde 1992. Em 2014 recebeu, em nome da EG, pelas mãos da presidenta Dilma Rousseff, a Ordem do Mérito Cultural, maior condecoração neste segmento no país, na categoria “Artes Integradas”. No mesmo ano, na sede da ONU (Áustria), a Fundação Essel reconheceu a Escola de Gente como um dos “40 projetos mais inovadores do mundo” na área de inclusão. Em 2011, a empreendedora foi agraciada, também em nome da instituição, com a mais alta condecoração oferecida pelo Estado brasileiro: o “Prêmio Direitos Humanos”, da Presidência da República.

Pesquisadora, articulista, consultora, ativista e palestrante internacional, Claudia Werneck, tornou-se, em 2000, a primeira escritora no Brasil a ter sua obras recomendadas, simultaneamente, por UNESCO e UNICEF. Publicou 14 livros sobre direitos humanos, diversidade e inclusão para crianças e adultos, todos pela WVA Editora, em português, espanhol e inglês, com mais de 300 mil exemplares vendidos no país e no exterior. Seu livro Quem cabe no seu TODOS? é uma referência internacional. Escreveu o primeiro título no Brasil sobre síndrome de Down, o Muito Prazer, eu Existo. A partir dele, recebeu três mil cartas e decidiu colocar sua carreira de jornalista a serviço da garantia dos direitos humanos, especialmente de crianças e adolescentes com deficiência e que vivem na pobreza.

Em 2011, seu livro Um amigo diferente? se transformou no primeiro espetáculo com total acessibilidade produzido no Brasil para crianças. Em 2007, outra obra da autoria de Claudia Werneck, Ninguém mais vai ser bonzinho, transformou-se no primeiro espetáculo com total acessibilidade produzido no Brasil para jovens e adultos.

Na América Latina, especialmente no Brasil, Claudia Werneck contribuiu para formar gerações de jovens mais aptos a não discriminar em função de diferenças e desigualdades de qualquer natureza. Criou e testou metodologias premiadas e disseminadas pelo mundo. Sua atuação pioneira nos temas “Comunicação pela Inclusão” e “Acessibilidade para a Sustentabilidade” lhe rendeu mais de 20 premiações nacionais, regionais e internacionais. Em 1998, tornou-se “Jornalista Amiga da Criança”, título dado pelo UNICEF e pela Agência de Notícias pelos Direitos das Crianças (ANDI). Em 2009, foi premiada pela Organização dos Estados Americanos (OEA), pelo projeto “Oficineiros da Inclusão”, desenvolvido na Escola de Gente com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Responsabilidade Social – O que é a “Escola de Gente”? Conte um pouco como você decidiu trabalhar com esse tema: a inclusão das pessoas com deficiência?
Claudia Werneck – A Escola de Gente – Comunicação em Inclusão trabalha para que as políticas públicas sejam inclusivas: garantam direitos humanos também para quem tem deficiência e vive na pobreza. Segundo a ONU, há cerca de um bilhão de pessoas com deficiência no mundo, 80% delas em regiões de pobreza nos países em desenvolvimento. São, pelo menos, 50 milhões de pessoas com deficiência na América Latina e Caribe, segundo o Banco Mundial; a metade, aproximadamente, está no Brasil.

Crianças com deficiência vivendo na pobreza são um dos alvos preferidos da violação de direitos no planeta. São, também, vítimas comuns de desastres naturais, guerras civis e conflitos armados, porque moram em locais perigosos sem água, comida, transporte, acesso à saúde, educação, cultura, esporte, lazer e saneamento. Enfrentam riscos diários e crescentes que agravam suas limitações. A tendência é ficarem mais pobres. É fato, portanto, que existe uma relação inequívoca entre pobreza e deficiência ainda não reconhecida, estudada e, consequentemente, não contemplada nas políticas públicas e nos programas e projetos empresariais de responsabilidade social. E foi no sentido de apontar e de buscar soluções para essa profunda desigualdade que eu criei a ONG Escola de Gente em 2002, a partir do conteúdo dos meus livros e metodologias sobre inclusão que comecei a desenvolver em 1992. A Escola de Gente faz da juventude seu principal agente de transformação. Da comunicação, sua estratégia. Dos direitos, seu território. Da infância, seu principal público beneficiário. A Escola de Gente já sensibilizou para a causa da inclusão mais de 410 mil pessoas em 17 países das Américas, Oceania, África e Europa. Tem 39 reconhecimentos e premiações nacionais e internacionais, como o “Prêmio Direitos Humanos da Presidência da República 2011” e a “Ordem do Mérito Cultural 2014”.

Nasci no Rio de Janeiro, filha de professores, e desde cedo me interessei pelo jornalismo. Na infância, fiz jornais de bairro. Na adolescência, pensava de que modo com a comunicação poderia criar um mundo sem barreiras. Em 1991, quando fui chefe de reportagem da revista PAIS&FILHOS, escrevi uma matéria sobre síndrome de Down que expandiu a minha consciência e mudou radicalmente o meu modo de pensar e de viver, além de redirecionar a minha carreira. Na ocasião, perplexa com a falta de informação dos profissionais da área de saúde e educação que eu entrevistava sobre o assunto, e com a minha própria falta de informação, percebi que eu não era a jornalista competente e com visão ampla que imaginava, porque nunca pensava, de verdade, em todas as crianças, em todas as gestantes, em todas as famílias… Por exemplo, escrevia uma matéria sobre como amamentar e não dava dicas que deveriam ser úteis para uma mulher sem braços ou que não pudesse movimentá-los e estivesse amamentando. Era como se essa combinação “mulher com deficiência-mãe-amamentação” não existisse. Bem, por conta dessa matéria, de 1991, que foi premiada pela Associação Médica Brasileira, decidi escrever o primeiro livro sobre síndrome de Down para leigos no Brasil, o Muito Prazer, eu Existo, publicado em 1992. No mesmo ano, meu marido, Alberto Arguelhes, e eu, transformamos o livro em um projeto e em uma editora especializada em inclusão e em livros acessíveis, a WVA, referência na área até hoje. Do investimento social privado da WVA nasceu a Escola de Gente. Hoje sou autora de 14 livros para crianças e adultos sobre inclusão publicados em português, inglês e espanhol, e fui a primeira jornalista brasileira a ter livros recomendados simultaneamente por UNESCO e UNICEF, no ano de 2002.

A Escola de Gente nasceu do meu desejo de passar para outras pessoas tudo o que havia aprendido sobre inclusão e documentado nos meus livros. Em 2002, decidi reunir meus esforços para formar uma geração de jovens mais preparada para conhecer e praticar o conceito de sociedade inclusiva, proposto pela ONU em 1990. Em uma sociedade inclusiva toda pessoa tem o direito de contribuir com seu talento para o bem comum, ainda que seja apenas com um piscar de olhos em um corpo que nem respira sem a ajuda de aparelhos.

A ideia de que alguém que tenha como o único movimento do seu corpo um abrir e fechar de olhos seja capaz de estudar, trabalhar, contribuir para o futuro da nação nos parece inconcebível, porque temos a convicção de que uma pessoa com tantas limitações tem como único destino ser um ônus para sua família e sociedade. Infelizmente, quanto mais pensamos desse modo, mais nos esquivamos da responsabilidade de conhecer e praticar o conceito de sociedade inclusiva; mais perpetuamos a exclusão de pessoas com deficiência no acesso a bens, serviços e direitos; mais aumentamos a defasagem de pessoas com deficiência em seu desenvolvimento pessoal, educacional e profissional. Até que um dia conseguimos finalmente provar que o tempo todo estávamos certos: “aquelas pessoas” não teriam, e não têm, a menor condição de estar estudando, trabalhando, casando, constituindo família. Pronto! Está fechado e confirmado o secular “ciclo da não-participação” a que pessoas com deficiência são submetidas diariamente.

Difícil quebrar esse “ciclo da não-participação” de pessoas com deficiência na vida em sociedade, do qual somos simultaneamente cúmplices e reféns. Reféns porque não conseguimos enfrentá-lo com a mesma seriedade que enfrentamos outros dilemas. Cúmplices porque o alimentamos diariamente. É lógico que esse processo se dá de forma inconsciente e tem como principal sintoma a criação de dias especiais para tratar do tema: Dia do autismo, Dia da Síndrome de Down etc. Mas pessoas com deficiência existem todos os dias e não apenas em dias de festa. E nem ganham presente nesses dias! Ao contrário do que acontece nos dias dos pais, dia das mães…. Pessoas com deficiência não são seres especiais, não têm valor extra, são, sim, sujeitos de direitos, de todos os direitos. E isso basta.

Uma situação que representa muito bem esse fluxo secular de violação de direitos em relação a quem não ouve, não anda, tem um cérebro que se movimenta mais lentamente, entre outras condições, é a abdução, com distorções, do conceito de inclusão. Uma prática adotada pela sociedade, mídia, governos e empresas… Inclusão não é colocar para dentro quem está fora, porque nesse caso estaríamos dizendo que dentro está ótimo, e não está. O melhor estudante da escola também é um ser excluído, mas nem ele ou sua família se dão disso. A inclusão propõe uma revolução e seu público é… todo mundo. A sociedade inclusiva é pra você também! Em certa medida, grupos e pessoas tradicionalmente excluídas estão em melhor situação do que pessoas que tradicionalmente se sentem “incluídas”, porque esse último grupo está inconsciente, apegado à ideia de que não precisa das mudanças propostas por uma sociedade inclusiva. E aí tudo que faz é pelos outros, como uma doação. Meu primeiro livro sobre sociedade inclusiva, no sentido do conceito proposto pela ONU, de 1997, se chama: “Ninguém mais vai ser bonzinho, na sociedade inclusiva”, numa alusão a esse fenômeno. Entendo que o tempo todo praticamos discriminação. Em alguns momentos somos os agentes da discriminação. No segundo seguinte, as vítimas. O que varia é o impacto desse jogo. Ele é muito mais cruel e devastador em suas consequências quando não se tem o que comer, onde morar, estudar, beber água limpa, trabalhar, usar transporte público, namorar, comunicar-se, ler um livro, participar das decisões de sua comunidade e do seu país.

RS –  Qual seria o principal desafio vivenciado pelas pessoas com deficiência no Brasil?
CW – A sociedade brasileira ainda trata a deficiência, carinhosamente, como um tema exótico, um assunto apenas “daquelas famílias”, jamais um conteúdo de interesse público, uma questão nacional, mas faz de tudo para disfarçar seu modo de pensar. Pessoas com deficiência existem com suas limitações e possibilidades, em maior ou menor proporção, dependendo na relação que têm com o meio ambiente. Ninguém “descansa” de suas deficiências. Ou de seus talentos. Isso prova que a sociedade não pode descansar também. A sociedade deve ter como base o ser humano. E não partes de um ser humano. E não apenas alguns seres humanos. E não apenas partes de humanos em alguns dias do ano. Por isso não uso a expressão inclusão social, porque ela reduz o significado de inclusão. Inclusão social? É pouquíssimo. Praticar inclusão é praticar a ética do indivíduo com sua espécie. É particularmente difícil para as pessoas lidarem com alguém que tenha uma deficiência intelectual, porque é na “qualidade” de seus cérebros que reside grande parte da importância que as pessoas se atribuem. Ou seja, como é viver em um mundo pautado pelo sucesso dos intelectos tendo um intelecto considerado de menor qualidade? Então, o maior desafio seria reverter essa mentalidade de que a sociedade, o trabalho, a escola não estão preparados para lidar com a enorme parcela da população brasileira que tem deficiência. As leis e políticas estão cada vez mais inclusivas. Devem ser implementadas sem resistência.

RS – Hoje fala-se muito em acessibilidade. Mas sabemos que a acessibilidade não é apenas física ou de ordem arquitetônica, mas envolve também o acesso à informação e ao saber para as pessoas com deficiência. Você poderia falar mais sobre essa “acessibilidade”?
CW – É na comunicação que se dão as mais graves formas de discriminação. Eu me refiro ao processo de comunicação. Por exemplo, de que adianta pintar de vermelho um extintor de incêndio para uma pessoa que é cega? O quanto é discriminatório anunciar em um programa de rádio uma super promoção comercial, ou em uma rádio comunitária, uma convocação para determinado projeto social se, ao final da mensagem, não vem um pedido como: “por favor, passe às pessoas surdas que você conhece essa informação”. Ou seja, a mãe de todas as acessibilidades é a acessibilidade atitudinal. Em 2002, no meu livro “Você é gente?”, e por considerar o direito à comunicação como um direito humano, criei dois conceitos que me guiam até hoje e que são muito úteis para se entender o significado de acessibilidade na comunicação: o “direito de se comunicar” e o “direito de ser comunicado”. Com eles, é possível constatar como o fluxo do conhecimento e da comunicação funcionam na perspectiva da inclusão. Quem imagina, por exemplo, que a oferta de acessibilidade na comunicação é apenas para garantir que pessoas com deficiência tenham acesso ao saber de quem não tem deficiência, está lidando de forma distorcida com a comunicação inclusiva. E o que é comunicação inclusiva? Ela se dá quando, além da ampla e diversificada oferta de recursos de acessibilidade comunicacional, como Libras, legenda, materiais impressos editados em outras mídias, audiodescrição nos eventos etc., há a consciência em todas as pessoas ou grupos que se comunicam de que, inexoravelmente, todos têm o mesmo valor humano, ou seja, expressam a mesma humanidade. Um bom exemplo é a comunicação entre pessoas adultas e crianças. Raramente há, entre esses dois públicos, uma comunicação inclusiva, porque é comum que o adulto tenha uma percepção de que as crianças, por estarem em fase de desenvolvimento, estão a seu dispor, são humanos de menor valor, tanto que muitas vezes o adulto que grita e bate em uma filha pequena com muita naturalidade não grita e bate em sua mulher. O mesmo acontece quando alguém sem deficiência se comunica com alguém com deficiência: se não há a percepção de que ambos expressam a mesma humanidade, em condições diferenciadas, não há uma comunicação inclusiva, ainda que essa comunicação seja permeada de recursos de acessibilidade. Todas essas reflexões ganham mais significado quando se trata de garantir o “direito de se comunicar” e o “direito de ser comunicado” para a infância brasileira com deficiência. Os significativos investimentos das empresas brasileiras na área de educação são sustentados por uma comunicação inclusiva? Caso não, o risco de que fomentem o ciclo de não-participação de crianças, adolescentes e jovens com deficiência na sociedade é enorme.
RS – E de que modo a Escola de Gente e você enfrentam o desafio da acessibilidade na comunicação para crianças, adolescentes e jovens?
CW – A ausência de acessibilidade na comunicação impede a liberdade de expressão e interfere negativamente no processo democrático. Para a Escola de Gente não há desenvolvimento sem sustentabilidade. Não há vida sem sustentabilidade. Não há sustentabilidade sem acessibilidade. É a partir dessa conceituação que a Escola de Gente concebeu e executou, em seus 13 anos de existência, 31 projetos, quase todos envolvendo a formação de jovens mais aptos a não discriminar em função de desigualdades e diferenças de quaisquer naturezas. A ampla, diversificada, gratuita e cotidiana oferta de recursos de acessibilidade na comunicação é a marca nacional e internacional da Escola de Gente, que desde 2005 integra o Conselho Nacional de Juventude da Secretaria Nacional de Juventude da presidência da República na cadeira “Jovens com Deficiência”. A atuação da Escola de Gente é múltipla, itinerante e transversal. A instituição agrega seu conteúdo filosófico e prático de inclusão, diversidade e direitos humanos às diferentes causas, saberes e ideias. Incide tanto nas macro políticas, como no Conselho Nacional de Juventude, quanto pratica essas políticas nos territórios. Dois níveis de atuação que se retroalimentam.
Desde 2011, por exemplo, inicialmente com o apoio do Instituto Oi Futuro e agora com o patrocínio da Petrobras, formamos Agentes de Promoção de Acessibilidade entre jovens com e sem deficiência de favelas pacificadas e não pacificadas no Rio de Janeiro. Eles têm aula de comunicação acessível e aprendem noções de Libras, audiodescrição, livro falado, legislação inclusiva e teatro acessível, de modo a se tornarem aptos para praticar uma comunicação expandida e, ao mesmo tempo, agregar valor a seu currículo para o mercado de trabalho. A força desse projeto é a comunicação acessível. Ao experimentá-la, os jovens com e sem deficiência expandem suas consciências cidadãs e ampliam suas redes territoriais. Como as pessoas com deficiência não são vistas, encontradas, percebidas pela comunidade como uma parte viva e intrínseca delas, a chegada de jovens com deficiência no projeto é resultado de um processo amplo, porque é a Escola de Gente que tem inúmeras vezes a responsabilidade de apresentá-los para a sua própria geração, para seus vizinhos. Com o passar das primeiras aulas, os jovens com deficiência mudam totalmente, porque passam a conversar por meio da Libras, por exemplo, e tudo isso vira uma grande e festiva aventura: a aventura da inclusão, a força do pertencimento, a alegria de ser reconhecido pela sua geração como parte dela. O projeto “Agentes de Promoção da Acessibilidade” fomenta na juventude que dele participa o desejo urgente de se reorganizar para o futuro, pois quebra resistências e ao mesmo tempo proporciona o exercício de uma nova ética, libertadora, inclusiva, contagiante, a ética da diversidade.

Em relação a projetos destinadas à criança, a Escola de Gente lançou, em 2015, em parceria com a WVA Editora, com o apoio do Criança Esperança e o patrocínio da empresa White Martins, o projeto “Todas as Pessoas Têm Direito a Conhecer Todas as Histórias”, de leitura acessível, que possibilitará a duas mil crianças vivenciar a leitura em múltiplas formas, a partir da experiência de “navegar” presencialmente pelos nove formatos do livro “Sonhos do Dia”, de minha autoria, publicado pela WVA, e que se tornou o primeiro livro brasileiro para crianças a ser publicado em nove formatos acessíveis. No projeto, a partir de uma instalação que reproduz esses formatos, as crianças irão ler as diferentes partes do livro em formatos diferentes. A instalação foi criada e doada pelo diretor de arte Tadeu Catharino, responsável pelo cenário da novela Meu Pedacinho de Chão, da TV Globo. O projeto ainda inclui oficinas de leitura acessível para crianças e educadores. É inaceitável que crianças com deficiência vivam sem acesso à leitura.
Segundo a Convenção da ONU, nenhum conteúdo de uso coletivo ou público pode ser editado somente em tinta. Uma obra ou um folder publicado apenas em tinta fortalece a discriminação que, muitas vezes, o próprio texto dessa obra e desse folder se dizem dispostos a combater. Um conteúdo publicado apenas em tinta se torna excludente ao impedir o acesso à informação ali contidas para quem é cego, tem baixa visão, deficiência intelectual, psicossocial ou múltipla ou, por qualquer outra razão, não possa ler. Uma pessoa sem informação dificilmente tem acesso a bens, serviços e direitos oferecidos pelos Estados. Um material impresso apenas em tinta pune duplamente quem não teve acesso à escola e não aprendeu a ler.

RS – O que você entende como uma “educação inclusiva”? Estamos perto de chegar a isso aqui no Brasil?
CW – Reproduzo uma definição que gosto mundo, do meu livro “Sociedade Inclusiva. Quem cabe no seu TODOS?” (WVA, 1999). “Escola inclusiva é o local onde as gerações se encontram e se reconhecem como parte de um TODO indivisível, exercitando-se eticamente desde cedo em suas múltiplas formas de existir, testando modos de ajudar e ser ajudado, preparando-se, enfim, para construir o futuro da nação”. Sim, já estamos praticando educação inclusiva no Brasil, mas se trata de um processo sistemático, que deve ser permanente explorado, aprimorado, e não de uma meta a ser cumprida e festejada antes do tempo. Importante lembrar que não há educação inclusiva sem comunicação inclusiva.

RS – E o papel dos meios de comunicação? Evoluíram, conseguem acompanhar?
CW – A transição de uma sociedade habituada a negar direitos humanos a pessoas com deficiência para uma sociedade inclusiva é repleta de ciladas. Muitos retrocessos ou falsos avanços acontecem e vêm embalados para presente, com laço de fita, delicadeza e amor. As pessoas amam e discriminam, ao mesmo tempo, sem desejar ou saber. Um processo semelhante acontece com a mídia. O jornalismo oferece cada vez mais espaço para tratar do tema deficiência, mas isso não significa que tenha avançado conceitualmente em sua abordagem. Meios de comunicação são muito pouco críticos quando lidam com o assunto. Ainda preferem pautar casos de pessoas com deficiência que se tornaram heroínas ou então anunciar uma nova tecnologia, raríssima, que às vezes nem chegou ou chegará ao Brasil, e que atenderá a um número mínimo de pessoas por um preço exorbitante. Ao contrário, a mídia deixa de tratar das questões que interessam, e que se referem ao modo antigo como a sociedade ainda percebe as pessoas com deficiência, como um “detalhe” da natureza, “intrusos” no planeta e na sociedade. O papel dos meios de comunicação é democratizar reflexões, promover investigações e monitorar ações na direção de políticas públicas inclusivas. Pessoas com deficiência são reais. Mas sua existência continua despercebida. A não percepção do grande número de pessoas com deficiência no mundo se reflete na comunicação.

RS – Você já trabalhou como consultora para uma série de empresas nessa área. Como você avalia que o setor privado pode contribuir a superar esses obstáculos ligados a realização dos direitos das pessoas com deficiência?
CW – Adotando uma visão sistêmica do conceito de inclusão e tendo a convicção de que não se faz uma empresa inclusiva sem grandes alterações na distribuição do seu orçamento. Muda o orçamento da CIPA e muda o orçamento da impressão do balanço e muda o relacionamento com as comunidades e com os meios de comunicação. As empresas (e também os governos) sabem quanto custa discriminar pessoas com deficiência. Agora precisam saber quanto custa não discriminar pessoas com deficiência em seus comunicados, em jornais, na construção de suas sedes, no atendimento de suas lojas, na formação de sua equipe e em todas as situações, das mais estratégicas às operacionais. Sem acesso à informação pessoas com deficiência não podem contribuir criativa e criticamente para seus ambientes de trabalho.

RS  – Qual a importância da cultura e da comunicação na luta contra a exclusão? Como a experiência do “Teatro Acessível” tem contribuído para esses avanços?
CW – A Escola de Gente vê na juventude um ator estratégico. Em 2008, criou o seu Programa de Juventude pela Inclusão para potencializar a força mobilizadora e ética da juventude na formulação de sociedades inclusivas no Brasil e nos demais países da América Latina por meio de projetos sociais e culturais como o grupo Os Inclusos e os Sisos – Teatro de Mobilização pela Diversidade, criado pela atriz Tatá Werneck, minha filha, em 2003, quando ela decidiu mobilizar outros estudantes de artes cênicas da faculdade UNIRIO, onde estudava, para formar um grupo que colocasse a arte a serviço da inclusão, sempre com humor. Em 2014, o teatro acessível da Escola de Gente recebeu premiação da Fundação Essel na sede da ONU, em Viena, como uma das 40 práticas mais inovadoras do mundo na área de inclusão e acessibilidade. Mais de 75 mil pessoas já assistiram aos espetáculos acessíveis e gratuitos da Escola de Gente em todas as regiões do Brasil, quase sempre patrocinado pelas empresas MRS, Vale, OI e White Martins, por meio de Lei Rouanet. O grupo de jovens desperta e forma novos artistas e plateias para um olhar inclusivo em relação à difusão da cultura. Em 2011, como um desdobramento de nosso teatro acessível, muito premiado no Brasil também, a Escola de Gente lançou a campanha “Teatro Acessível. Arte, Prazer e Direitos, adotada em 2013 pelo Ministério da Cultura como ação e conteúdo de política pública. Para promover a campanha, foi estabelecida uma sólida parceria com as Secretarias da Identidade e da Diversidade Cultural (SID/MinC) e de Fomento e Incentivo a Cultura (SEFIC/MinC). A Escola de Gente realiza teatro acessível como parte fundamental do processo de transformação social, cultural, econômica. Estamos formando plateia, e capacitando para o mercado de trabalho jovens talentos que estão no palco, muitos pela primeira vez, a partir da campanha, apoiada pela MRS. O teatro acessível da Escola de Gente é necessariamente gratuito e tem toda acessibilidade física e comunicacional em todas as sessões: Libras desde a fila, legenda, audiodescrição, visita ao cenário, programas em braile, letra ampliada e em meio digital, atendimento prioritário e reserva de assentos.

No cumprimento da legislação inclusiva, também no que se refere à cultura e especificamente ao teatro, a Escola de Gente se dedica a buscar o equilíbrio entre a garantia de direitos e a experiência prática da inclusão. Incide nas políticas públicas e, ao mesmo tempo formula, executa, avalia, sistematiza e dissemina gratuitamente seu conhecimento. Desenvolve conteúdos, pesquisas e metodologias que hoje se traduzem, possivelmente, na mais ousada formulação da comunicação pública inclusiva do país. Uma sofisticada rede de produtos culturais, sociais e educacionais: espetáculos teatrais, oficinas, livros, campanha midiática, sites e vídeos.

RS – Qual o seu entendimento do termo ‘responsabilidade social’?
CW – Segundo a ONU, nos próximos 30 anos, o número de pessoas com deficiência irá aumentar 120% nos países em desenvolvimento; e 40% nos países desenvolvidos. É nessa perspectiva que a Escola de Gente trabalha, para provar que garantir as necessidades específicas de comunicação de pessoas com deficiência dentro e fora das empresas, e também nas políticas, nunca é um custo, e sim um investimento inadiável em direção à sustentabilidade das nações e do planeta. Eu entendo, portanto, que a responsabilidade social não deve ser uma área das empresas, mas sim um programa estruturante em todas as dimensões.


Escola de Gente: www.escoladegente.org.br

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