O Legado de Betinho

Imagem inspiradora de Betinho

Imagem inspiradora de Betinho

Não há ninguém melhor que o saudoso Betinho para personificar a metafórica história do Beija-Flor – um pássaro obstinado que teimou em voar repetidas vezes entre o lago e a floresta em chamas, com uma pequena gota de água no bico para apagar o fogo. “Faça a sua parte”, ensina o conto. O mineiro nascido no ano de 1935 parece ter aprendido essa lição. Afinal, fez de sua vida um apelo à importância da solidariedade e da união das pessoas em prol de uma causa.

Betinho se envolveu em diversos tipos de militância – como movimentos estudantis nos anos 60, renovação do cristianismo, reforma agrária, luta contra regimes militares latino-americanos, entre outras. Mas foi a busca de soluções para a fome que assola milhares de brasileiros que o tornou inesquecível e absolutamente presente nos dias de hoje – mesmo cinco anos depois de sua morte.

Betinho idealizou e colocou em prática o movimento Ação da Cidadania Contra a Miséria, a Fome e pela Vida, em junho de 1993. O projeto iniciou-se por meio da arrecadação de alimentos e distribuição desses a famílias carentes. A população brasileira prontamente atendeu o chamado e a arrecadação foi espetacular: nada menos que 600 toneladas de alimentos. A iniciativa de nove anos atrás cresceu e deu frutos. Hoje, existem cerca de 500 comitês espalhados por todo o Brasil e pelos países França, Suíça, Inglaterra, Canadá, Itália, Estados Unidos, Japão e Chile.

Cerca de três milhões de brasileiros contribuíram com o projeto, desde sua criação. Tais grupos, no entanto, não restringiram seus trabalhos a coleta de alimentos na época do Natal. Mas também se dedicam a projetos de pesquisa, geração de empregos, desenvolvimento sustentável, entre outros. Todos os comitês são independentes entre si e planejam sua área de atuação conforme as necessidades da comunidade em que estão instalados.

Em Brasília, um dos comitês mais atuantes é o Comitê de Ação e Cidadania dos Servidores da Câmara dos Deputados, mais conhecido como CD-Cidadania. O grupo começou a contribuir com a causa de Betinho em 1994, pela Campanha Natal Sem Fome. Logo nessa primeira edição, o empenho e a participação do grupo mostrou sua força – chegaram a reunir 18 toneladas.

Hoje, com oito anos de existência, o CD-Cidadania conta com 600 associados, que contribuem mensalmente com a mensalidade que desejarem – o apoio varia entre R$ 20 e R$ 100 e rende um montante médio de R$ 10 mil por mês. “Nós auxiliamos entre cinco e oito associações diferentes por mês. Todas as ações acontecem conforme os pedidos dos próprios associados”, diz Eduardo Maia de Aquino, presidente do CD-Cidadania. Hoje, o grupo contabiliza cerca de 200 ações desde sua criação. Vale ressaltar que o grupo é totalmente independente da Câmara dos Deputados. “Nós agimos sozinhos. Mesmo assim, a Casa se mostra muito satisfeita com o trabalho que fazemos”, fala Eduardo.

Os trabalhos desenvolvidos pelo grupo são variados: construção de creches; galpões; reformas de diversas obras (cozinhas, bibliotecas, etc.); compra de remédios; apoio a dependentes químicos; doação de computadores para cursinhos de informática gratuitos, entre outros. Porém, o maior orgulho do CD-Cidadania está hoje no sul do estado do Piauí, na cidade de Gilbués. Ao se deparar em Brasília com muitas pessoas de baixa renda e crianças desnutridas vindas dessa cidade, o grupo resolveu visitar o lugar.

Ao chegar lá, notaram que poderiam fazer um ação de desenvolvimento sustentável no local por meio da criação de cabras e plantio do feijão guandu. A idéia básica consiste em estimular pequenos produtores da cidade a plantar uma determinada quantidade do feijão guandu – que serve tanto para a alimentação humana quanto para a animal. Ao realizar o plantio estipulado pelo programa, o produtor ganha uma cabra. “Esse produtor se compromete, por sua vez, a repassar a primeira cria fêmea da cabra para outra família da cidade, desde que esse segundo produtor também tenha plantado a quantidade estipulada de feijão guandu, e assim por diante”, explica Eduardo.

Segundo ele, os associados do Comitê se mostram muito satisfeitos com o rumo de suas doações. “São pessoas que antes davam esmola na rua, viciando os indigentes a pedirem mais e a continuarem nessa condição. Agora, elas sabem a eficácia de direcionar seu apoio a uma entidade específica”, orgulha-se Eduardo. Para o próximo ano, os planos incluem continuar os investimentos na cidade de Gilbués e iniciar um projeto semelhante na cidade de Irecê, no interior da Bahia. “Esse é, com certeza, um trabalho com grande capacidade de multiplicação”, resume Eduardo.


Site: www.camara.gov.br/cidadania - Tel.: (61) 9964-8156

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