Vanderley M. John e Paola Figueiredo

Vanderley M. John

Vanderley M. John

Energicamente eficientes, sem desperdício de água e disponibilização de procedimentos para reciclagem de materiais. Eis alguns mandamentos da cartilha da “construção verde”, movimento imobiliário internacional, que defende a produção de empreendimentos de forma sustentável, com o uso racional de recursos naturais.

Mas afinal, o que define uma construção sustentável? Para responder essa pergunta e outras mais sobre o tema, o site Responsabilidade Social.com entrevistou dois especialistas sobre o assunto – Vanderley M. John, membro e diretor o Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS) e Paola Figueiredo, diretora do Grupo SustentaX, responsável pela certificação do primeiro empreendimento ambientalmente sustentável da América do Sul. Confira:

1) Responsabilidade Social – O setor da construção civil é responsável por 40% da energia consumida e por 35% das emissões de carbono, sendo considerado um dos vilões do meio ambiente. O que tem sido feito no Brasil para mudar esse cenário?
Vanderley John –
O papel do CBCS é promover, em colaboração com entidades da sociedade civil, mercado e órgãos públicos, a estruturação do setor da construção civil, com o incremento progressivo de critérios sustentáveis. A entidade já deu início aos estudos para a elaboração de políticas públicas e setoriais, e atua, intensamente, para o avanço do conhecimento em sustentabilidade. Estamos trabalhando na formação de redes para o desenvolvimento de novas soluções e produtos, no fomento da formação de recursos humanos e de uma cultura da construção sustentável junto ao mercado e aos consumidores.

Paola Figueiredo – Além da consultoria da SustentaX – Engenharia de Sustentabilidade, para empreendimentos que almejam certificação, A NewmarEnergia, empresa do Grupo SustentaX pioneira no Brasil na implantação de projetos de geração em empreendimentos comerciais a base de gás natural, oferece o serviço de Gestão Energética Integrada que permite até 30% de redução no consumo de energia. Este ano, a NewmarEnergia, iniciou a prestação do serviço Otimização Energética Integrada para Edificações com o intuito de fazer com que os empreendimentos imobiliários atendam os requisitos de eficiência energética mínima dos critérios de sustentabilidade ambiental. Por meio de simulação computacional, a equipe de profissionais altamente especializados em envelope, energia, climatização e iluminação estará ajudando os projetistas a encontrar o ótimo equilíbrio entre custos e eficiência energética. A NewmarEnergia com esse trabalho contribuirá para integrar, de forma otimizada, os conceitos arquitetônicos, térmicos e elétricos dos projetos e o cumprimento das metas de conforto ambiental e eficiência energética.

A Neutrum_S – Descarbonização e Neutralização Sustentável tem como objetivo auxiliar empresas a contribuírem de forma eficiente e sustentável para o equilíbrio do ecossistema planetário por meio da redução de suas emissões de gases efeito estufa e da neutralização de seus fatores de produção e resíduos emissores.

2) RS – O que é uma construção sustentável?
VJ –
Para equilibrar os impactos ambientais e sociais com os resultados econômicos, não devemos pensar só na construção civil. O foco é o ciclo de vida do edifício, pois a maior parte dos impactos ambientais e sociais ocorre ao longo da utilização do edifício e mesmo a demolição tem impacto importante.

3) RS – O que uma construção deve apresentar para ser considerada sustentável?
PF –
Para uma construção ser sustentável ela precisa seguir um critério de certificação de sustentabilidade social e ambiental. Sustentabilidade é um conceito que pode ser entendido de maneira diferente pelas pessoas. O critério mais difundido no mundo é o Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), criado pela Organização não-governamental U.S. Green Building Council (USGBC). Alguns exemplos de pré-requisitos de sustentabilidade ambiental são:

– Eficiência Energética Mínima;
– Ausência / Redução de CFC;
– Separação, Armazenagem e Coleta de Lixo e Reciclagem;
– Uso de Lâmpadas com baixo teor de mercúrio;
– Tratamento do descarte de água;
– Qualidade Interna do Ar Sob Controle;
– Fumaça de Tabaco Sob Controle;
– Não Utilização de Amianto;
– Controle da Erosão e Sedimentação;
– Garantia de Medição e Verificação dos Resultados.

4) RS – Esses parâmetros são universais? Como e por quem eles foram definidos?
VJ –
Existem problemas universais, como mudança climática gerada pelo CO2, preservação da natureza etc. Mas, os problemas em cada local são diferentes. Por exemplo, para os americanos, reduzir a emissão de CO2 é prioritário por atacar a questão energética. No Brasil, a prioridade talvez seja a questão amazônica, que se traduz na construção em termos de uso de madeiras. Aqui o tripé social é importante, enquanto que nos países desenvolvidos essa questão não. Ela tem desdobramentos como a questão da informalidade… Tudo isso está ausente no conceito de Green Building, típico do hemisfério norte e que vem sendo importado para o Brasil.

Então, a definição do que é construção sustentável precisa ser feita localmente, pelos participantes do processo. Essa é uma tarefa a cumprir no Brasil. Precisamos ter a nossa agenda e o CBCS deverá iniciar uma colaboração com diferentes entidades brasileiras para formulá-la.

PF – Como disse antes, podem existir tantas definições de sustentabilidade quanto pessoas dispostas a falar sobre elas. Por essa dificuldade, é imprescindível que seja definida uma metodologia rígida na demarcação de parâmetros de sustentabilidade. Sendo assim, é importante que por trás dessa conceituação esteja alguma instituição reconhecida como referência. É o caso do Leed, que foi criado por um conselho formado por empresas envolvidas diretamente no processo de construção civil nos EUA. Esse é seu principal diferencial: O critério Leed não foi criado por acadêmicos e sim por entidades ligadas inteiramente ao processo de construção e ao mercado. Essa norma é constantemente reavaliada. Hoje, existem projetos certificados no EUA, México, Canadá, Brasil, Espanha, Itália, China, Índia, Austrália e etc.

5) RS – A SustentaX, desenvolve no Brasil o gerenciamento de certificação de prédios, com base no critério do LEED, sigla inglês de Liderança em Design Ambiental e Energético, concedido pelo Conselho Norte-Americano de Construção Verde (United States Green Building Council – USGBC). Como funciona a concessão desse “selo verde” e quantos edifícios no país já foram certificados?
PF –
O processo de certificação do Leed é dividido em quatro fases: projeto, construção, comissionamento e acompanhamento de certificação. A documentação é analisada pelos especialistas do USGBC que demoram de 90 a 150 dias para analisar e sanar as dúvidas. Após esse período, o empreendimento recebe uma classificação: certificado prata, ouro ou platina, que varia de acordo com os itens de sustentabilidade alcançados. No Brasil, só existe um empreendimento certificado que é a Agência Granja Viana do Banco Real. Existem já alguns empreendimentos com pré-certificação, ou seja, mostrando a intenção de serem sustentáveis ambientalmente, mas que ainda não passaram por todas as etapas.

6) RS – Esses empreendimentos são economicamente viáveis ou realizar um projeto sustentável pode encarecer a obra?
VJ –
Se não for economicamente viável não é sustentável. Em cada empreendimento pode se fazer muita coisa pela sustentabilidade. Bastam a decisão e o desenvolvimento de soluções. Naturalmente soluções avançadas, mais radicais, como incorporação de painéis fotovoltaicos e vidros extremamente sofisticados que melhoram muito a eco-eficiência ainda são um investimento caro, em algumas situações. Se o objetivo for fazer uma obra que seja um marco na sustentabilidade, ela não vai sair barata. Mas, embora essas obras sejam inspiradoras, elas em si não são suficientes. Precisamos mudar a construção média.

PF – O preço de um empreendimento sustentável tem acréscimo de 0 a 5% no valor original.

7) RS – Desde 2006, o Grupo SustentaX, passou a atuar no negócio de sustentabilidade aplicada a empreendimentos. Como a senhora avalia esse mercado hoje no Brasil? O quesito “preocupação ambiental” já é um fator considerado na hora de comprar um imóvel?
PF –
Segundo pesquisa da revista Consumidor Moderno de dez 2007/jan 2008 são imprescindíveis para os consumidores no Brasil: qualidade (19%), atendimento (19%), preço (17%) e são fatores de diferenciais a empresa que consegue materializar para o consumidor que possui responsabilidade socioambiental (12%) e propaganda ética (12%). Portanto, não basta ter produtos e serviços de qualidade, a bons preços e oferecidos com bom atendimento. Será preciso, também, que os mesmos sejam percebidos como tendo sido produzidos por uma empresa responsável com as questões sociais e ambientais.

8) RS – Como está o mercado desses empreendimentos? Há uma projeção de crescimento para esse ano?
VJ –
Não existem projeções nesse sentido. No entanto, estamos crescendo.

PF – Estamos vivendo um processo de mudanças. Rapidamente, os investidores, os construtores e proprietários vão se dar conta de que os Green Buildings certificados são um ótimo negócio para todos os participantes. E a razão é simples: quem irá querer morar em um apartamento que tem menor qualidade ambiental interna? Quem irá querer pagar mais condomínio sem nada em troca? Quem irá comprar um imóvel com menor valor de revenda? Dentro de cinco anos, qualquer empresa que tenha a ambição de estar ou permanecer na liderança do mercado deverá ser reconhecida pelos seus clientes e pela sua cadeia produtiva como tendo uma operação competitiva, ética e sustentável.

9) RS – Projetos de edificações ambientalmente corretas são viáveis em países como o Brasil, onde há um abismo entre moradias de áreas periféricas e modernos conjuntos comerciais e residenciais?
VJ –
Temos uma necessidade de discutir sustentabilidade em habitações para classe média baixa e habitações sociais também. Essas são responsáveis por boa parte dos materiais de construção. A visão de Green Building do norte nos levaria a concluir que não há nada a fazer na habitação popular. Participo de um projeto com a Universidade Federal de Santa Catarina, Universidade de Campinas e a Universidade Federal de Goiás para discutir como aplicar esses conceitos em habitação popular. Muito precisa ser feito, inclusive com a redução de custo.

PF – Sim, pois empreendimento sustentável é nada mais do que um empreendimento feito de forma integrada e inteligente, buscando o uso eficiente de insumos como água, energia e resíduos.

10) RS – Esse movimento das “construções verdes” já promoveu uma modificação no mercado de materiais de construção? O que há de novo e ambientalmente correto no mercado?
VJ –
No Brasil ainda não. No mercado internacional com certeza. Temos concretos auto-limpantes e que também diminuem a poluição.

PF – Com a experiência adquirida pelo processo de certificação do Banco Real, o Grupo SustentaX criou o Selo SustentaX de Sustentabilidade com Qualidade. Ele tem como objetivo aumentar a produtividade e reduzir custos na concepção e implantação de Green Buildings. Ele funciona identificando materiais, equipamentos e prestadores de serviços socioambientalmente corretos no crescente mercado de construções sustentáveis, permitindo a rápida identificação por projetistas, arquitetos, construtores, compradores e outros interessados. Foi assim que, após dez meses de pesquisas e auditorias, o piso Tate da Giroflex foi o primeiro a receber o Selo SustentaX em fevereiro de 2008. Hoje, há cerca de 50 produtos de grandes empresas em processo de análise para a conquista do Selo.

11) RS – O que uma família pode fazer para tornar sua casa “ambientalmente correta” sem gastar muito?
PF –
Com pequenas medidas nas residências contribui-se para impactos ambientais e redução nos gastos de energia e água, por exemplo. Algumas medidas a serem tomadas:

– Água: ter chuveiro eficiente (o banho é o maior consumidor de água); fechar a torneira enquanto se ensaboa; reduzir o tempo no banho, se possível; fechar a torneira quando for escovar os dentes; manter a válvula de descarga sempre regulada para uma vazão mínima adequada; estar atento a vazamentos; evitar o desperdício de água como “varrer” calçadas e quintais; quando viável, utilizar a água de último enxágüe da máquina de lavar para a limpeza de chão e irrigação; em um projeto paisagístico, dar preferência para espécies nativas da região e que necessitem de pouca água e, se possível, fazer captação das águas de chuvas.
– Energia: eliminar o consumo de energia desnecessária; apagar a luz se não estiver necessitando; desligar aparelhos que não precisam estar ligados todo o tempo; usar energia solar para aquecimento de água; usar temporizadores para cargas intermitentes (boilers elétricos, por exemplo); usar lâmpadas eficientes com baixo teor de mercúrio; instalar sensores de presença em locais não permanentemente habitados; usar o mínimo de água necessária para ser esquentada; manter os bicos dos fogões limpos; regular o aquecedor a gás para oferecer uma temperatura agradável sem desperdício de água ou gás; quando conveniente e seguro utilizar transportes alternativos como bicicleta.
– Lixo: nunca jogar óleo de cozinha pelo ralo (várias ONGs têm programas de recolhimento); reduzir o desperdício, reutilizar sempre que possível e separar os materiais recicláveis para a coleta seletiva facilitando a reciclagem.

12) RS – Qual o seu entendimento pessoal do termo “responsabilidade social”?
VJ –
Todos temos responsabilidades na sociedade. No Brasil, fazer a coisa da forma certa, pagando impostos, respeitando as leis já me parece ser um diferencial de responsabilidade social. Mas considerando a necessidade de transformar o desenvolvimento da sociedade, responsabilidade social hoje me parece que exige mais: exige ações concretas para superar nossa dívida social e aumentar a eco-eficiência dos nossos processos de produção de consumo. Se aplica às empresas e aos cidadãos.

PF – Responsabilidade Social Corporativa é um conceito nascido da percepção de empresários que os problemas sociais são armadilhas no desenvolvimentos de seus negócios. Problemas como baixo poder aquisitivo da população, sistema educacional deficiente, violência, etc. Além disso, hoje em dia mais de 50% do PIB do mundo está na mão das empresas e os estados estão enfraquecidos. Inicialmente, o processo de ação de responsabilidade social corporativa ocorria nos âmbitos assistencialista ou filantrópico, com ganhos significativos de imagem para a empresa. Com o tempo, as empresas foram se envolvendo mais no desenvolvimento de práticas de responsabilidade social corporativa, chamando para si o exercício de desenvolvimento de questões que os entes federais deixaram vagas. O sucesso dessa empreitada criou a empresa-cidadã, motivo do desenvolvimento de uma nova ética social no mundo dos negócios, substituindo a ética de maximização de lucros pura, em que a aplicação de responsabilidade social corporativa faz parte do núcleo de negócios, inserida em toda a estrutura da empresa.


Conselho Brasileiro de Construção Sustentável - Tel.: (11) 3869 0791; Grupo Sustentavel - Tel.: (11) 3062-5031

Também nessa Edição nº: 53
Perfil: Maria Barbosa da Silva
Artigo: O desafio de divulgar temáticas sociais
Notícia: O que deu na mídia (edição 53)
Notícia: Mulher Cidadã
Notícia: Portas abertas para o mercado de trabalho
Notícia: Desenvolvimento sustentável nos canteiros de obras do DF
Oferta de Trabalho: Procura-se (05/2008)