Scott Poynton

Scott Poynton

Hoje, o TFT é uma organização não-governamental presente em 14 países, com uma equipe de 120 pessoas e 80 clientes importantes. Segundo Scott Poynton, a rápida evolução do TFT se deve ao fato de conseguirem adicionar valores reais a seus clientes.

Para o presidente da ONG internacional The Forest Trust (TFT), Scott Poynton, o mercado de carbono é um absurdo completo. “Além de serem um absoluto desperdício de tempo. Eles não são a solução, pois não previnem nem diminuem as emissões de combustíveis fósseis”, avaliou. A entidade ajuda empresas a “limpar” a sua cadeia de produção, selecionando, por exemplo, fornecedores que não causam desmatamento.

O australiano, que atualmente vive na Suiça é mestre em agronomia pela Universidade de Oxford. Ele recebeu dessa academia o Oxford Forestry Institute’s Jubilee Prize. Ao iniciar carreira no mundo empresarial como diretor da subsidiária da ScanCom International no Vietnã, uma das maiores fornecedoras mundiais de madeira para mobiliário, Poynton implementou grandes mudanças, levando a corporação a um rápido crescimento econômico ao mesmo tempo em que certificava toda a produção madeireira destinada ao mercado europeu (usou o selo florestal do Stewardship Council).

Trabalhando com o Banco Mundial, liderou o desenvolvimento econômico de empresas relacionadas à silvicultura na Romênia, Vietnã, Índia, Laos, Rússia e Papua Guiné. Desde 1993, atuando entre o mundo dos negócios e da natureza, ele mediou situações de conflitos e conseguiu beneficiar todas as partes envolvidas ao integrar questões econômicas e ambientais. Foi essa experiência de campo que o levou a fundar o TFT The Forest Trust, em 1999.

Hoje, o TFT é uma organização não-governamental presente em 14 países, com uma equipe de 120 pessoas e 80 clientes importantes. Segundo Scott Poynton, a rápida evolução do TFT se deve ao fato de conseguirem adicionar valores reais a seus clientes. Poynton acredita que a chave para a mudança de paradigmas na economia está nas cadeias de suprimentos globais. Mas critica o sistema de certificações florestais e não acredita nos mecanismos de mercado de carbono. Na entrevista concedida ao Mercado Ético e reproduzida pela Responsabilidade Social.com, ele explica porque.

O que o mundo empresarial pode fazer de melhor para transformar o sistema de produção e consumo sem destruir florestas?
Scott Poynton
 – As pessoas estão buscando saídas para problemas como desmatamento, direitos humanos e poluição sem irem a fundo sobre o que realmente está ocorrendo. E têm apontado para o lugar errado em busca de soluções. A maioria das respostas ou propostas estão focadas em mudanças de leis, ou nas propostas das Nações Unidas. Mas esse tipo de solução leva muito tempo para ser implementada, e há muita incerteza nos resultados. No entanto, as cadeias de suprimentos globais e locais são as causas dos problemas dos quais falamos. As leis podem ajudar, mas geralmente os governos são relutantes em mudá-las, pois podem significar redução de oportunidades econômicas ou perda de empregos. Portanto, temos que procurar outros caminhos para lidar com estas questões.

Florestas são derrubadas para produzir objetos de madeira, para produzir soja ou para criar gado. A madeira, a soja e o gado são a base de cadeias de suprimentos globais e locais; e são matérias primas para as indústrias locais e globais que compram e vendem produtos com as especificações de qualidade próprias. Então, da mesma forma que pedimos madeira de uma cor específica, ou com qualidades técnicas específicas, podemos pedir madeira que não cause desmatamento ou violações dos direitos humanos. Podemos pedir produtos à base de soja ou subprodutos bovinos que não causem desmatamento, ou abusos aos direitos humanos.

Dessa forma, ao invés de apenas buscarem matérias-primas mais baratas, as empresas podem inserir “produtos responsáveis” em suas cadeias de fornecimento.

Qual o peso do Brasil como grande fornecedor de matérias primas para todo o mundo, e sua repercussão nas políticas que envolvem as cadeias globais de suprimentos?
SP
 – O Brasil é muito importante, particularmente como fornecedor de soja e de produtos advindos do gado, e em menor grau para a madeira. Há outros setores importantes no país – açúcar, ferro-gusa entre outros setores nacionais inseridos nos mercados globais. Se essas empresas brasileiras decidirem impactar políticas pelo “Não Desmatamento” ou pela “Não exploração de pessoas”, então isso terá uma grande influência sobre as cadeias de fornecimento em todo o mundo.

Você afirma que podemos alimentar o mundo e salvar as florestas. Explique melhor como o Brasil poderia conciliar o desenvolvimento econômico e a conservação florestal?
SP
 – A chave para isso está em melhorar o rendimento da produção em terras já desmatadas. Temos uma noção imatura, pouco desenvolvida, sobre a agricultura extensiva – imagina-se que ainda seja essa a resposta para as grandes terras já desmatadas; mas podemos gerenciar mais intensamente essas áreas e produzir mais por hectare. Eu acho que os empresários, e os governos em particular, têm uma visão estreita sobre crescimento. Eles acreditam que o crescimento só virá com a expansão da produção sobre mais terras e que os terrenos já limpos são menos produtivos do que poderiam ser; mas em muitos casos, a terra tem sido completamente improdutiva por más práticas agrícolas.

O desmatamento é responsável por 18% das emissões globais de gases de efeito estufa. E o Brasil, que era o 4o maior emissor por desmatamento, chegou a reduzir em 80% a derrubada da Amazônia. Mas hoje, o país vem aumentando as emissões nos setores de energia e agropecuária (que somam hoje 67% das emissões totais brasileiras, segundo dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). Em um artigo, você diz que o desmatamento é ainda o grande vilão, pois dele decorrem tantos outros impactos negativos, no ambiente e na sociedade. Como barrar a curva das emissões em um mundo que oferece incentivos para todos os tipos de negócio “sujo”?
SP 
– Boa pergunta! Eu acredito que podemos barrar as emissões através das cadeias de fornecimento, e arregimentar compradores para dizer “Nós não queremos desmatamento em nossos produtos”. E então trabalhar com os fornecedores que não aceitam matéria prima “suja” em suas operações comerciais. Igualmente, os consumidores podem dizer “Nós não queremos energia suja, queremos que invistam em energia renovável”. Podem ainda dizer “Queremos que tratem os funcionários de maneira justa”.

Sobre certificações florestais, onde estão os principais problemas e como garantir ao consumidor que o produto que ele escolhe é de fato o melhor?
SP
 – Há muitos problemas com a certificação florestal, mas acredito que o principal seja seu modelo de financiamento. Não existe o que se chamam “auditorias por terceira parte independente”. Os auditores não são independentes, nem são “terceira parte”, pois em ambos os casos as empresas pagam os auditores. Além disso, no caso do FSC, 80% de suas receitas são geradas por taxas pagas quando um certificado é emitido. Todas as empresas de auditoria, e o próprio FSC, ganham dinheiro através da emissão de certificados. No caso das empresas de auditoria, eles recebem uma taxa por seu trabalho, mas se eles não emitem certificados, ninguém vai contratá-los. No caso do FSC, eles recebem sempre que é dado um certificado. Isso gera um grande conflito de interesses. Eu acredito que todo o processo de certificação tornou-se uma “raquete financeira”.

Em setembro último foi divulgada a primeira parte do quinto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) – os cenários sobre a elevação da temperatura do planeta nas próximas décadas são alarmantes, e apesar disso as emissões de gases do efeito estufa permanecem altas; e o ceticismo em torno da teoria do aquecimento global segue mobilizando opiniões. Como enfrentar o problema marcado por complexas relações entre ciência, tecnologia e sociedade?
SP
 – Sim, este é um desafio real. Chamamos isso de “wicked problems” (ou “problemas ruins”), pois são problemas realmente tão complexos, mas que pedem soluções fáceis. Acho que o caminho para lidar com eles é enfrentá-los em um nível local e resolvê-los um de cada vez. A abordagem ascendente é importante, assim como líderes empresariais são peças fundamentais no processo. O fracasso contínuo das reuniões das COPs mostra que não podemos contar com a ONU. As empresas que aceleram a mudança climática com práticas chamadas de “clima hostil” são as mesmas lideranças de mudança. Empresas, organizações da sociedade civil e comunidades devem trabalhar em conjunto para resolver os “maus problemas” e fornecer aos governos a oportunidade de assistir, aprender e ouvir.

Quando há casos claros de empresas responsáveis bem sucedidas é mais provável que os governos venham atrás e mudem políticas ou marcos legais, obrigando todas as empresas a operar da mesma forma.

As Convenções do clima discutem a necessidade da criação de um novo ordenamento financeiro internacional favorável ao estabelecimento de economias de baixo carbono. Como você enxerga os mecanismos de mercados de carbono?
SP
 – Eu acho que o MDL e REDD são um absurdo completo. Além de serem um absoluto desperdício de tempo. Eles não são a solução, pois não previnem nem diminuem as emissões de combustíveis fósseis. Eles tentam compensar as emissões e a compensação nunca funciona. Nosso futuro só pode ser assegurado se nós pararmos de queimar combustíveis fósseis.

Das experiências levadas aqui no Brasil, quais as melhores lições para o TFT global? E como o TFT pretende evoluir no País?
SP
 – Nós tivemos algumas boas experiências de trabalho no Brasil, alguns desafios também. O Brasil é interessante na medida em que a produção de recursos naturais, pelo menos no setor de madeira, é comercializada internamente. Isso significa que o Brasil é diferente – em países como a Indonésia, os compradores europeus podem exigir produtos responsáveis e os gestores florestais respondem mais facilmente. No Brasil, se a base de consumidores não exige fortemente produtos responsáveis, então a mensagem não vai voltar aos gestores florestais. Este tem sido um desafio para nós. Mas esse desafio permitiu-nos trabalhar em estreita colaboração com as boas empresas, aquelas que querem fazer a coisa certa por causa de seus valores, não porque eles estão sendo atacados por organizações não governamentais.
Nossos planos para o Brasil são o de continuar crescendo com nossa operação aqui, trabalhando com boas empresas e no recrutamento de jovens brasileiros que amam o meio ambiente e também tenham forte capacidade de trabalhar com as empresas. Globalmente, trabalhamos em uma ampla gama de indústrias, a maioria com uma pegada florestal. Por exemplo, nós trabalhamos com pedreiras na Ásia (principalmente na Índia), onde focamos nas péssimas condições de trabalho no setor – apoiamos compradores europeus para transformar essa indústria. Estamos começando no setor de minerais. Basicamente, o TFT pode trabalhar com qualquer recurso natural, porque o nosso trabalho é garantir a solução de quaisquer questões ambientais ou sociais nas cadeias de fornecimento. Nós somos especialistas em cadeia de suprimentos de recursos naturais, e não apenas silvicultores.

Eu gostaria de espelhar essa abordagem aqui no Brasil, onde já trabalhamos com uma diversidade de parceiros em uma gama de setores. Nosso objetivo não é apenas para deter o desmatamento, mas também para garantir que bens de consumo sejam produzidos e vendidos de forma responsável.

(Responsabilidade Social com informações do Mercado Ético)




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