Rodrigo Villar

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O pesquisador do Centro de Investigação e Estudos sobre a Sociedade Civil, no México, Rodrigo Villar, fala sobre as novas tendências colocadas ao Investimento Social Privado (ISP). Para ele entre os principais dilemas que têm despontado na área está o alinhamento entre o ISP e o negócio das empresas investidoras, algo presente em toda a América Latina. Para o especialista, essa discussão sobre alinhar ou não o investimento ao negócio já foi superada. Agora, a nova pergunta que deve ser feita é: qual o tipo e de que forma esse alinhamento deve acontecer?

Para Villar, é preciso ainda diversificar a área, criando-se mais fundações independentes, algo que ainda não é comum na América Latina, assim como garantir o fortalecimento da sociedade civil, visando uma sociedade cada vez mais democrática e que busca a transformação social.

Antropólogo com especialização na área de planejamento e administração de políticas sociais na Universidade de Harvard, Villar tem mais de 30 anos de experiência em projetos de desenvolvimento social em diferentes países da América Latina. Até início de 2012, foi diretor de Aprendizagem e Gestão do Conhecimento da Fundação para o Desenvolvimento de Organizações Sociais (DIS) e durante cinco anos atuou como assessor da Fundação Interamericana (IAF) para a criação e fortalecimento da RedEAmérica.

Como consultor, trabalhou para o Banco Interamericano de Desenvolvimento, Banco Mundial, Instituto Synergos, World Education e o Harvard Institute for International Development. Confira a entrevista completa:

Quais são hoje as principais tendências e desafios para a área do ISP?
Rodrigo Villar
 – Creio que temos vários temas de tendências e desafios para discutir. Uma questão importante é a relação com os governos. As alianças público-privadas vêm crescendo nos últimos 20 anos na América Latina. Hoje, mais de 70% das fundações têm alianças com o setor público de alguma maneira. Esse é um grande potencial, pois é uma maneira de dar escala para as ações. Por outro lado, é um desafio porque as lógicas e os tempos são outros. Cada um trabalha de uma forma diferente e isso requer mais confiança e a criação de elementos que garantam que a parceria não seja apenas para alavancar recursos complementares, mas sim também talentos e gerar modelos inovadores conjuntamente.

Outro desafio é o fortalecimento da sociedade civil. Muitas fundações trabalham com a sociedade civil, mas, em grande parte das vezes, essas organizações são contratadas como terceiros. Mas, para aprofundar a democracia, requer outra estratégia, com maior fortalecimento da sociedade civil para que ela possa se expressar e demandar direitos. Existem, claro, experiências nesse sentido sendo desenvolvidas, mas necessitam crescer.

Nestas parcerias, quais são os potenciais que cada um dos atores podem colocar à disposição para fortalecer as iniciativas a serem desenvolvidas?
RV
 – O setor público tem uma grande fortaleza, que é pensar grande, tanto no sentido de atuação – cidade, região ou nação – quanto em temas que são importantes para a sociedade. Já as fundações não necessariamente têm essa escala na sua cabeça. Mas, elas têm a capacidade em trabalhar com mais profundidade e menos pressão política. Juntar essas duas formas de trabalho pode fortalecer muito as iniciativas. As lógicas de atuação são distintas, mas as possibilidades de alianças e o potencial destas são enormes.

E em relação à inovação das ações? Como a área tem que se comportado a respeito?
RV 
– As fundações têm recursos que podem investir tranquilamente, pois se trata de um dinheiro que não tem pressões políticas, não precisa trazer resultados eleitorais. O tempo de maduração de uma ideia também é muito maior. Com isso, pode arriscar mais. Só que não arriscam. Isso acontece principalmente com as fundações empresariais que querem preservar a reputação da empresa, possivelmente, e não querem fracassar. Desta forma, vão investindo em coisas boas e importantes, claro, mas não se arriscam, não investem tanto em inovações.

E isso é essencial. É preciso investir em inovações que conduzam a uma transformação social, por um lado, e que fortaleçam a sociedade civil também. A questão da escala também precisa ser discutida. São vários elementos e perguntas: como gerar políticas públicas para que a escala seja maior? Como gerar mais agendas colaborativas e em parcerias para dar escala às iniciativas? Como ter recursos suficientes para construir modelos que possam ampliar-se e investir em estratégias similares em outras partes do mundo?

Na sua opinião, há outros desafios ainda a serem superados no setor?
RV 
– O setor está crescendo, mas, principalmente com a criação de novas fundações empresariais. E, para que exista um maior balanço, se requer que as fundações independentes, as familiares e as comunitárias, se desenvolvam também. As fundações empresariais têm essa relação com a empresa que, muitas vezes, trazem algumas dificuldades. Mas, as independentes, podem investir em temas que, muitas vezes, as demais não trabalham ou não querem trabalhar.

Para um setor mais diverso, se requer que cresçam outras formas fundacionais. As fundações comunitárias são um fenômeno. Elas estão se multiplicando rapidamente pelo mundo, mas na América Latina nem tanto. Creio que é preciso um esforço deliberado para que cresçam cada vez mais.

Por que na América Latina não temos essa característica como nas outras partes do mundo?
RV 
– Lembremos que uma fundação comunitária atua num território, seja ele um município, Estado ou região. E isso requer que os atores deste território disponham recursos para o desenvolvimento territorial e coloquem seus talentos a serviço do local. Existe um trabalho colaborativo forte, de uma generosidade e de investimento conjunto.

Agora, porque isso não acontece na América Latina, não tenho uma resposta certa. Há muitos trabalhos sendo realizados em territórios, mas, por algum motivo não claro, não temos alguns elementos para que elas avancem por aqui. Não sei se no México existe um pouco mais pela proximidade dos EUA, que contam com muitas fundações comunitárias.

Outro tema que tem despontado bastante nos debates é o alinhamento entre o negócio da empresa e o ISP. Em sua opinião, esse alinhamento é possível? Quais as vantagens e os riscos?
RV
 – O que estamos vendo é que não é algo que se pode parar. Não tem como voltar atrás, pois o alinhamento já está sendo feito. Agora, a pergunta deve ser: Como fazer um alinhamento da melhor forma possível e que contribua para gerar um desenvolvimento sustentável e para resolver os problemas da sociedade?

Acredito que há muito potencial quando as fundações e as empresas trabalham juntas e se apoiam conjuntamente. As possibilidades de impactos são muito maiores, pois estão colocados para o benefício da sociedade os recursos que passam tanto pela fundação, como pela empresa. Os recursos da empresa, por exemplo, são seus funcionários voluntários, o know how, a legitimidade e a capacidade convocatória. Todos estes recursos juntos com as fundações podem fazer grandes transformações.

O risco grande é que esse alinhamento seja uma forma de fazer com que a fundação preste serviços à empresa. Ou seja, uma maneira da empresa instrumentalizar a fundação para que esta se encarregue de uma de suas tarefas de responsabilidade social.

É um risco porque tira o caráter mais inovador que pode ter uma fundação. Se for um alinhamento só para dar um retorno rápido à empresa, então não dá. Mas, se alcança um bom alinhamento que visa uma transformação social, aí o resultado é diferente. Há muitas formas de alinhamento. Não há um modelo e uma única resposta.

(Entrevista originalmente publicada pela RedeGife)




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