Mario Benevides

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Foi lançado no início desse mês o livro “Nós e a Sustentabilidade”. Organizado pelo engenheiro eletricista pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Mario Benevides, e pela engenheira florestal pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Silvia Valdez, a publicação debate caminhos para aliar empreendedorismo e conservação dos recursos naturais.

A obra traz artigos de mais 14 especialistas, de diversas áreas, que, de acordo com suas especialidades, estimulam a reflexão sobre os caminhos para o desenvolvimento sustentável, sem, no entanto, a pretensão de apontar respostas definitivas.

Segundo Benevides, a proposta é encurtar a distância entre o cidadão-leitor e temas como mudanças climáticas, a transição para uma economia de baixo carbono, o impacto de grandes empreendimentos na vida da comunidade. “O principal objetivo é despertar o interesse do leitor em temas que muitas vezes ficam restritos ao meio acadêmico ou a debates onde nem sempre a plateia consegue se inserir de modo mais consciente e confiante para participar desses debates, formar e compartilhar seus conceitos”, diz.

Benevides tem MBA em Direito Econômico pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), MBA em Gestão Empresarial pela Fundação Dom Cabral e Pós-MBA pela Kellogg School of Management, Estados Unidos. Atua há mais de 30 anos em engenharia e sustentabilidade. É autor do romance “A revolução do silêncio”.

Na entrevista exclusiva para o Responsabilidade Social.com, ele fala sobre como surgiu a ideia de organizar a publicação e analisa o movimento contemporâneo em relação à sustentabilidade. Lançado pela Relata Editorial, “Nós e a Sustentabilidade” tem 224 páginas e já está disponível nas livrarias de Florianópolis, Rio de Janeiro e São Paulo.

1) Responsabilidade Social – Você é um dos organizadores do livro “Nós e a Sustentabilidade” lançado no início de outubro. Na sua opinião, qual a percepção do cidadão comum sobre temas como mudanças climáticas e sustentabilidade?
Mario Benevides
– Em relação às mudanças climáticas, de modo geral, o cidadão comum fica dividido entre os que afirmam que a ação humana tem contribuído para que essas mudanças tenham ficado mais intensas e com maiores riscos e prejuízos para a humanidade e o meio ambiente, e entre os que consideram desprezível a ação humana sobre o clima, que defendem que as mudanças climáticas são cíclicas e independentes do que fizer a humanidade. Como o grau de esclarecimento e informação proporcionado via meios de comunicação costuma não ser suficiente, o cidadão poderá se situar entre os extremos do ceticismo indiferente e o do alarmismo inconformado e com a sensação de impotência.

Em relação à sustentabilidade, para os que não conhecem o conceito de desenvolvimento sustentável como caminho a ser trilhado entre o desenvolvimento a qualquer preço e a preservação absoluta, a palavra pode parecer vazia de sentido e meramente fator de propaganda – algo desnecessário e gerador de custos também desnecessários, ou um simples e ao mesmo tempo sofisticado sinônimo de preservação do meio ambiente. É preciso, portanto, esclarecer o conceito do desenvolvimento sustentável: o desenvolvimento econômico capaz de permitir que as gerações atuais satisfaçam suas necessidades, sem impedir que as futuras gerações possam satisfazer as suas – fundamentado, portanto, no desenvolvimento econômico com respeito ao meio ambiente e à humanidade.

2) RS – Como surgiu a ideia de organizar a publicação e como começou o seu envolvimento com a temática?
MB
– A ideia surgiu exatamente da sensação de que esses temas são pouco conhecidos e compreendidos e que seria interessante trazer aos não especializados o ponto de vista, a base e a experiência de especialistas, numa linguagem que deveria ser própria de cada um deles, com liberdade de fazer uso de conceitos e citações acadêmicas ou simplesmente narrar sua vivência em determinados processos ou empreendimentos.

Outro fator para buscar aproximar o leitor dos temas em foco foi o emprego da poesia na introdução dos artigos, despertando a curiosidade por meio da imaginação poética. A temática surgiu de um grupo de fatores que pareceu a nós organizadores mais urgentes para o cenário atual: políticas sobre as mudanças climáticas; como desenvolver empreendimentos de infraestrutura de maneira a trazer benefícios sustentáveis para comunidades; educação e educação ambiental; ética e política; o desenvolvimento sustentável em debate; a economia solidária e a busca da sustentabilidade para comunidades rurais e na periferia das cidades; quando preservar e quando conservar áreas de recursos naturais, seu uso racional e o arcabouço legal envolvido; e a percepção da energia pela sociedade – de que forma que se dá essa comunicação e como a energia é percebida?

3) RS – Quais são os objetivos do livro e quais são suas expectativas em relação à aceitação da publicação?
MB
– O principal objetivo é despertar o interesse do leitor em temas que muitas vezes ficam restritos ao meio acadêmico ou a debates onde nem sempre a plateia consegue se inserir de modo mais consciente e confiante para participar desses debates, formar e compartilhar seus conceitos. As expectativas de aceitação são boas e, para que isso aconteça, temos muito trabalho pela frente para aprimorarmos nossa aproximação ao público.

4) RS – Você acredita que a população tem clareza sobre sua pegada ecológica? Na sua opinião as pessoas estão mais preocupadas hoje com as mudanças climáticas do que há uma década?
MB
– O conceito de pegada ecológica precisa se tornar mais claro para a maioria das pessoas. Mesmo nos meios científicos e de produção, há controvérsias e áreas de baixo conhecimento, entendimento e sem bases para que se estabeleçam consensos ou divergências com solidez conceitual. Com respeito às mudanças climáticas, sim, acredito que a preocupação seja crescente, em decorrência inclusive da sensação de que o discurso político tem avançado pouco e tem sido ultimamente pouco convincente sobre o assunto.

5) RS – Como você analisa o movimento contemporâneo em relação à sustentabilidade?
MB
– Há empresas, instituições não-governamentais, de pesquisa e de governo, além de cidadãos comuns, que veem na sustentabilidade perspectivas de inovação dos meios de produção e hábitos de consumo, relacionamento e comportamento baseados no respeito e na ética, inclusão social, respeito ao meio ambiente, racionalização no uso dos recursos naturais, cuidados com a água, o ar e o solo, pesquisas tecnológicas capazes de reduzir em curto tempo custos de produção de energias renováveis de baixo impacto ambiental, tudo isso em prol do desenvolvimento econômico sustentável – com o olhar para as gerações atuais e as futuras.

6) RS – Na sua opinião, quais as grandes tendências desse movimento em direção à chamada ‘nova economia verde’?
MB
– Economia verde é um conceito ainda em formação. A maior tendência me parece ser a melhor compreensão do conceito da sustentabilidade, de que forma embasar-se uma economia que traga o desenvolvimento econômico com a real consciência de continuidade e futuro para a humanidade e sua vida no planeta, de forma pacífica e democrática, instigando aquilo que a humanidade tem de melhor: sua inventividade. Diferentes formas de aumentar o interesse pelo desenvolvimento econômico que respeite o meio ambiente e a sociedade surgirão desse exercício: o “como” nascido do “o quê” fazer.

7) RS – Qual é a sua avaliação sobre a forma que o governo brasileiro tem conduzido as questões ambientais?
MB
– O governo, em suas diferentes esferas e períodos, tem avançado em relação a políticas de uso dos recursos naturais de forma racional. E o maior avanço que nós contemporâneos desses tempos temos percebido se chama democracia.

8) RS – Quais são, na sua opinião, os principais desafios da agenda ambiental do país para os próximos anos?
MB
– Racionalidade, transparência, clareza de propósitos e abertura para o diálogo, defesa da democracia e do interesse maior, comunicação em todas as esferas e com todos os envolvidos, proposição e condução de políticas que sejam previamente debatidas, é que poderão proporcionar eficiência energética e de infraestrutura, baixos custos de produção e competitividade, inclusão social, inovação, educação, crescimento e desenvolvimento com sustentabilidade.

9) RS – Qual o seu entendimento do termo “responsabilidade social”?
MB
– Ética nas relações sociais, de trabalho e no ambiente de negócios, no exercício da política; superação do assistencialismo; inclusão social; respeito aos indivíduos, à sociedade, às comunidades e às instituições; respeito às leis, à diversidade em todos os seus aspectos; repúdio e combate ao trabalho escravo e infantil, à corrupção e a qualquer forma de discriminação.


Mario Benevides - Blog: mariobenevides.blogspot.com

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