Márcia Soléra

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Com uma bagagem de três décadas, a Associação Pestalozzi de Osasco (SP) traz dados tímidos, mas animadores da inserção de pessoas com deficiência intelectual no mercado de trabalho, área de atuação da instituição. Atualmente, a associação tem 100 jovens sendo treinados e 15 estão prontos para o mercado. Nos últimos cinco anos, 25 dos jovens atendidos pela entidade conseguiram uma oportunidade de emprego.

“Pelo fato da incidência da deficiência intelectual na população ser mais baixa do que outras deficiências, existe um maior desconhecimento a respeito dessa deficiência. Penso que esse desconhecimento desperta mais resistência por parte das empresas para receberem esse público”, destacou a gestora da instituição, Márcia Soléra.

Para preparar os jovens, com idades a partir dos 14 anos, a Pestalozzi realiza, por exemplo, um programa de aprendizagem, que compreende a capacitação e qualificação profissional, com um curso básico por um ano e um programa de educação profissional. Este prevê a identificação das potencialidades dos alunos para o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias à atividade laboral.

“Todos os nossos processos de inserção de trabalhadores com deficiência intelectual são precedidos de oficinas de sensibilização, para que chefias e colegas saibam como receber a pessoa com deficiência”, explicou Márcia em entrevista exclusiva para o Responsabilidade Social.com. “Desde a fundação, os nossos programas visam desenvolver a autonomia do jovem e promover sua inclusão no mundo do trabalho”, completou.

Márcia Soléra também aponta quais são os principais avanços e os retrocessos do Brasil na área de inclusão social, avalia a Lei nº. 8213/91, conhecida como a Lei de Cotas, e fala os principais desafios do país para incluir e garantir a permanência desses cidadãos no mercado de trabalho. Acompanhe.

1) Responsabilidade Social – A Associação Pestalozzi completou no último mês 30 anos de atuação em prol da inclusão social de pessoas com deficiência intelectual. Qual o balanço que a senhora faz do trabalho da instituição e quais os desafios para a próxima década?
Márcia Soléra
– A Pestalozzi de Osasco foi fundada em meio ao movimento de integração da pessoa com deficiência. No princípio, o trabalho protegido das Oficinas Abrigadas era praticamente a única forma de inserção social para a grande maioria das pessoas com deficiência intelectual. O ingresso formal no mercado de trabalho, nessa abordagem, era privilégio somente daqueles que apresentavam um comprometimento menos significativo e que, por isso, poderiam ser preparados para serem integrados na sociedade.

Nos 20 primeiros anos de atuação, portanto, a Pestalozzi de Osasco realizou um trabalho importante, uma vez que, por meio de suas oficinas, promoveu o desenvolvimento do jovem com deficiência intelectual, estimulou seu convívio social e resgatou a autoestima de muitos que, até então, não tinham nenhuma perspectiva de vida social e produtiva.

Na última década, com o movimento social da inclusão da pessoa com deficiência ganhando cada vez mais força e, consequentemente, com a regulamentação da Lei de Cotas [Lei 8213/91], que obriga empresas com mais de 100 funcionários a contratarem e manterem em seu quadro funcional um percentual de pessoas com deficiência, a Pestalozzi de Osasco passou por mudanças bastante significativas.

Logo em 2001, a entidade conseguiu a inserção de um dos jovens atendidos na White Martins, a primeira empresa parceira da Pestalozzi, na qual o jovem trabalha até hoje. A partir de 2005, a entidade passou a oferecer cursos de qualificação profissional de nível básico e hoje possui cursos de aprendizagem.

A demanda pelos serviços também cresceu e hoje a entidade oferta atendimento para aproximadamente 100 jovens. Os resultados alcançados nos últimos cinco anos com a inclusão de 25 jovens no mercado formal de trabalho são muito satisfatórios, se considerarmos os índices nacionais e locais de empregabilidade da pessoa com deficiência intelectual. O grande desafio a ser enfrentado na próxima década é conseguir garantir a sustentabilidade da entidade, além de vencer a barreira do preconceito, de modo que possamos construir uma sociedade mais justa e cada vez mais inclusiva.

2) RS – Na sua opinião, quais são os principais avanços e os retrocessos do Brasil na área de inclusão social ao longo desse período?
MS
– A legislação do país é bastante avançada no que diz respeito à inclusão de pessoas com deficiência. Contudo, o cenário atual retrata que os índices de empregabilidade das pessoas com deficiência têm decrescido nos últimos três anos. Esse fato revela que a ação do Ministério do Trabalho do Emprego não é eficaz e que o preconceito e dificuldade das pessoas de conviver com a diversidade dificulta o acesso das pessoas com deficiência ao mercado de trabalho.

3) RS – Como a senhora começou a trabalhar com pessoas deficientes? Há alguma razão especial?
MS
– Concluí o curso de psicologia no ano de 1981. Na mesma época, minha mãe e um grupo de senhoras, com o apoio de Agatha Maria D’Angelo, davam os primeiros passos para a fundação da Associação Pestalozzi de Osasco. Assim, já no final do ano seguinte, como voluntária, realizei as primeiras triagens de jovens com deficiência intelectual, candidatos as 30 vagas para o Programa de Oficinas Pedagógicas ofertado pela entidade.

Minha relação de muitos anos com pessoas com deficiência intelectual e, em especial, meu envolvimento e engajamento na causa passam, portanto, por essa ligação afetiva com a instituição, mas, também, por uma característica pessoal muito forte. Sou muito exigente comigo e com as pessoas, quero sempre que tudo seja perfeito. Luto constantemente para me tornar uma pessoa melhor, mais tolerante e mais resignada frente à falta fundamental que constitui a subjetividade de todos nós, que somos humanos e, por conseguinte, somos imperfeitos. Acho que a convivência com a “diferença” me ajuda a conviver melhor com minhas próprias deficiências.

4) RS – O foco de atuação da Pestalozzi é a capacitação de jovens com deficiência intelectual para o mercado de trabalho. Qual aspecto a senhora acha mais importante para ser trabalhado nas empresas que empregam deficientes?
MS
– O êxito de uma inclusão e da permanência de uma pessoa com deficiência na empresa se deve, em grande parte, à capacidade das pessoas de conviver com a diversidade e com a deficiência. As barreiras atitudinais no ambiente de trabalho representam o maior obstáculo e, por esse motivo, deve ser o foco principal a ser trabalhado pela empresa que faz a inclusão de uma pessoa com deficiência.

5) RS – Como a senhora avalia a Lei de Cotas, que obriga grandes empresas a empregarem de 2% a 5% de deficientes, e quais os principais desafios do país nesse sentido?
MS
– A Lei de Cotas representa uma ação afirmativa importante para garantir o direito da pessoa com deficiência ao trabalho. O grande desafio é conseguir que a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego seja efetiva e que as empresas e a sociedade em geral possam conscientizar-se de que o trabalho é direito de todos.

6) RS – Por ser um mercado de trabalho competitivo, como a senhora vê o ingresso dos deficientes nas grandes empresas?
MS
– Quando a oportunidade de ingressar no mercado de trabalho é dada a uma pessoa com deficiência ela consegue mostrar seu potencial e, de um modo geral, as empresas se surpreendem com seu desempenho. Penso que isso acontece porque as pessoas e empresas têm ideias preconcebidas a respeito da deficiência que só poderão ser modificadas ou mesmo desmistificadas no cotidiano e na convivência no ambiente de trabalho.

7) RS – A Associação Pestalozzi trabalha especificamente com pessoas com deficiência intelectual. Na sua avaliação, o mercado ainda é mais acirrado para este público? Por quê?
MS
– Os dados indicam que, das pessoas com deficiência contratadas, apenas 5% possuem deficiência intelectual, enquanto que o percentual das pessoas tanto com deficiência física quanto com deficiência visual é superior a 20%. À primeira vista, a informação sugere que há mais resistência das empresas para contratarem pessoas com deficiência intelectual.

Contudo, essa mesma relação de proporcionalidade entre as pessoas que apresentam algum tipo de deficiência se mantém nos dados do Censo 2010 do IBGE. [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística]. Isso significa dizer que a deficiência intelectual está presente em 4,3 % das pessoas que têm alguma deficiência.

Vale dizer também que, pelo fato da incidência da deficiência intelectual na população ser mais baixa do que outras deficiências, existe um maior desconhecimento a respeito dessa deficiência. Penso que esse desconhecimento desperta mais resistência por parte das empresas para receberem esse público.

8) RS – O governo federal anunciou no dia 15 de agosto que o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) disponibilizará 20 mil vagas para pessoas com deficiência. Como a senhora avalia essa iniciativa? Trata-se de uma política pública eficaz?
MS
– Trata-se de mais uma importante ação afirmativa para a redução das desigualdades e garantia do direito da pessoa com deficiência à educação e ao trabalho. Porém, a eficácia dessa ação perpassa, necessariamente, a qualidade do ensino que é ofertado e o preparo do corpo docente e discente para conviverem com pessoas com deficiência.

9) RS – Qual o seu entendimento do termo responsabilidade social?
MS
– A empresa que tem responsabilidade social consegue alinhar ganho de capital ao desenvolvimento socioambiental.

Saiba mais sobre a deficiente no mercado de trabalho.


Associação Pestalozzi - Telefone: (11) 3682-2158

Também nessa Edição nº: 142
Perfil: Amyra El Khalili
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