Liane Rotta

Liane Rotta

Liane Rotta é coordenadora do ORSUB (Observatório de Responsabilidade Social das Universidades Brasileiras) e Pró-Reitora de Planejamento da UFCSPA (Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre). Em entrevista exclusiva, ela conta ao Responsabilidade Social.com sobre o objetivo dos observatórios, sua funcionalidade e contribuições. “A universidade deve estar preparada para receber os jovens, mostrando a sua atuação como instituição que tem a responsabilidade social estampada em sua missão e promovendo a educação para todos”, afirma. Confira:

Responsabilidade Social.com – O que é o ORSUB?
Liane Rotta – O ORSUB é o Observatório de Responsabilidade Social das Universidades Brasileiras, sediado na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Os observatórios tem o objetivo de traçar o panorama das instituições e das ações de responsabilidade social desenvolvidas no(s) país(es) que representa(m), procurando identificar as melhores práticas de Responsabilidade Social Universitária (RSU) para que possam ser compartilhadas com todos. O ORSUB está ligado ao ORSALC (Observatório de Responsabilidade Social na América Latina e Caribe), que, por sua vez está vinculado à IESALC (Instituto Internacional de Educação Superior na América Latina e Caribe) e por fim, à UNESCO.

RS – Qual seria a responsabilidade social de uma instituição universitária?
LR – A responsabilidade inicia na vontade das Universidades em institucionalizar a RSU. A partir desta iniciativa a responsabilidade social deve ser capilarizada na instituição de forma a incidir transversalmente nos diferentes segmentos ou setores que a compõe. Neste sentido, a RSU ocorre através de muitas ações que permeiam diferentes áreas, tais como: bom governo e transparência; recursos humanos e clima laboral; equidade, gênero e integração; meio ambiente e campus sustentável; reumanização; aprendizagem em serviço; vinculação e voluntariado; networking com stakeholders; educação para o desenvolvimento sustentável; ambiente e cultura juvenil.

RS – Qual sua avaliação sobre os projetos de extensão desenvolvidos pelas universidades brasileiras e como as mesmas poderiam se aproximar mais da comunidade?
LR – Embora a responsabilidade social envolva ações bem mais amplas, ainda é através da extensão universitária que ela se materializa de forma mais frequente. A extensão universitária deve ser próxima da sociedade. As ações devem ser planejadas conjuntamente, desenhando projetos/programas que aliam as necessidades das comunidades à expertise das universidades em colaborar na resolução dos problemas. Assim, haverá interesse bilateral em desenvolver projetos que são aplicáveis a necessidades identificadas pelas pessoas que integram a comunidade, que vivem os problemas. Entendo que o primeiro passo para que isso possa se concretizar seja ter territórios próprios, ou seja, que as instituições de ensino tenham áreas geográficas e populacionais atendidas pela universidade, permitindo-lhe desenvolver a chamada “responsabilidade social territorial”. Isto, de certa forma, proporciona que os parceiros desta aliança estreitem cada vez mais as relações baseadas no conhecimento da realidade da população ou do território atendido pela universidade. Como consequência, todas as ações decorrentes serão beneficiadas, pois os fluxos serão conhecidos, as relações facilitadas e as ações de benefício mútuo. Assim, desenvolve-se a confiança entre os parceiros, se pratica acordos entre os atores sociais envolvidos para melhorar a vida em comum e se realiza a prática responsável.

Os projetos de extensão desenvolvidos pelas universidades brasileiras são muito ricos em suas temáticas. Muitos deles têm um envolvimento importante com a sociedade, colaborando para que a mesma evolua positivamente em seus problemas. Porém, há outros que não estabelecem um vínculo social efetivo, que são descontinuados e que não retornam à sociedade os seus produtos (quer seja na forma de conhecimento ou de ação desenvolvida). Os projetos devem, ao longo de seu tempo de desenvolvimento, proporcionar o empoderamento da comunidade o sentido de que a mesma desenvolva a capacidade de dar o encaminhamento adequado para a resolução de suas necessidades. Creio que isto tudo vem evoluindo nas universidades, com a discussão do importante papel da extensão na formação acadêmica.

As universidades devem ouvir a sociedade e problematizar suas demandas para que possam colaborar ainda mais na transformação social, introduzindo as problemáticas nos eixos relacionados, mas principalmente agindo através da extensão. Há muito que avançar, tanto no interior das universidades, quanto na sociedade para que a mesma esteja preparada para desenvolver parcerias verdadeiras, associadas à extensão.

RS – Como esse tema (RSU) está sendo desenvolvido internacionalmente? Há países da região que possam ser citados como referências?
LR – Internacionalmente, organismos como o IESALC e o ORSALC (vinculados à UNESCO) tem promovido a discussão do tema, de forma organizada, procurando evidenciar, nos diferentes países, as atividades desenvolvidas (construindo um perfil de cada país) que podem servir de referência, ou então, identificando as melhores práticas em responsabilidade social. Também, estes organismos têm proporcionado discussões sobre o tema para que se possa avançar em conceitos e em indicadores relacionados à RSU. A partir disso, se objetiva colaborar na definição de políticas públicas de alcance nacional e/ou internacional.

É interessante constatar que no Chile as principais instituições públicas, não necessariamente estatais, se reuniram em torno do conceito de RSU com intuito de aprimorar a gestão universitária e de criar uma cultura coletiva a partir da implantação de um projeto em comum, denominado Projeto Universidad Construye País, buscando expandir o conceito e a prática da RSU no sistema universitário chileno. Desenvolvido no período entre 2001 e 2008, o mesmo envolveu 13 universidades públicas.

O referido projeto se fundamentou no fato das universidades serem encarregadas da formação das elites intelectuais, das quais surgem profissionais e acadêmicos, com potencial de liderança na sociedade, que precisam tomar consciência da realidade chilena e de suas prementes necessidades. Sustenta-se em princípios e valores  – tais como:  fraternidade, solidariedade, dignidade da pessoa, liberdade, integridade, bem comum e equidade social, desenvolvimento sustentável, apreço à diversidade, entre outros – os quais deveriam nortear o fazer acadêmico, sem se restringir à procura da competência, eficiência e êxito pessoal.

A experiência chilena constitui-se caso paradigmático. Dirigentes universitários e suas respectivas comunidades acadêmicas se debruçaram sobre a temática da RSU desenvolvendo uma interessante proposta de promoção da responsabilidade social universitária, a mesma que pode servir para repensar os sistemas universitários dos diversos países da América Latina e do Caribe. Trata-se de uma proposta que envolveu conceitualização, princípios, valores e ferramentas de gestão universitária, com o intuito de observar, avaliar e realizar ações corretivas quando necessário.

RS – Como mudar a cultura atual do ensino superior e fazer com que milhares de jovens que se formam a cada ano possam enxergar como agentes de mudança e transformação social?
A universidade deve estar preparada para receber estes jovens, mostrando a sua atuação como instituição que tem a responsabilidade social estampada em sua missão e promovendo a educação para todos. Como potenciais agentes transformadores da sociedade, as universidades deve mostrar o exemplo. Para mudar a cultura atual, o esforço deve ser constante e contínuo, com auto diagnóstico e correção permanente de seus impactos negativos. Deve-se investir na educação socialmente responsável: aquela que deve possibilitar uma formação humanista em concomitância à formação técnica, promovendo discussões acerca de temáticas sociais, considerando as necessidades da sociedade o planejamento de suas ações e interagindo ativamente com os setores executivos e de estabelecimento de políticas sociais do governo federal, estadual e municipal.

Considerando então as necessidades sociais e as políticas de governo, deve desenvolver suas atividades nos diferentes eixos: da investigação, da extensão, do ensino, da cultura e também da gestão. As ações devem ser desenvolvidas com vistas à permanência dos acadêmicos no ensino superior, ao incentivo ao bem-estar, à qualificação e aperfeiçoamento de seus servidores, ao contínuo aprimoramento de sua estrutura visando a melhorias na acessibilidade, nas condições de trabalho e de ensino. Adicionalmente, deve estar evoluindo continuamente para aprimorar a sua sustentabilidade e transparência, bem como aperfeiçoando sua relação com seus parceiros (stakeholders) e sua comunicação com a sociedade, participando, sempre que possível, a fim de influenciar nas políticas públicas de desenvolvimento social (nível local, nacional e/ou internacional).

Desta forma, dando visibilidade das ações desenvolvidas institucionalmente, estimulando a participação de seus estudantes durante toda a vida acadêmica e estimulando o desenvolvimento da aprendizagem baseado em projetos sociais, a universidade colabora para que os estudantes adquiram preparo para atuar como agentes de mudança e transformação social.

RS – Qual sua definição de responsabilidade social?
LR – A RSU é um tema que merece uma discussão profunda e isenta pela comunidade acadêmico-científica e pelas autoridades universitárias que lideram os diversos fóruns nacionais existentes nas áreas da extensão, do ensino e da pesquisa. Não há uma clareza sobre o que é a Responsabilidade Social aplicada à Educação Superior.  Tal consenso parece ser mais evidente no âmbito organizacional empresarial no qual com o conceito RS se quer falar de uma boa gestão integral que incorpora o legal, a organização trabalhista, as declarações corporativas, a publicidade e o impacto para a comunidade de sua ação empresarial. Daí a importância do trabalho que é feito pela UNESCO, via IESALC, ORSALC e agora, ORSUB.

A Responsabilidade Social não é um conceito eticamente neutro, mas que seu marco ético, em um contexto de pluralidade social, religiosa e ética, é a exigência pessoal e coletiva a respeito e promoção dos Direitos Humanos em toda sua amplitude (individuais, sociais, culturais e econômicas) (Boletim IESALC Informa de Educação Superior, 2011). Esse conceito vem sendo construído e atualizado à medida que a sociedade impõe novos elementos como atores a serem considerados como indicadores potenciais de responsabilidade social. Entendo a RSU como a capacidade que tem a universidade de difundir e colocar em prática um conjunto de princípios e valores, por meio de quatro processos chaves: gestão, ensino, pesquisa e extensão. Assim, assume sua responsabilidade social perante a própria comunidade universitária e o país onde está inserida. A RSU congrega a gestão de quatro impactos  que uma instituição universitária possui: organizacional (laboral, ambiental), educativo (formação acadêmica), social (extensão, transferência e geração de conhecimentos, projeção social) e cognitivos (investigação, epistemologia).


UFCSPA - www.ufcspa.edu.br

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