Lena Tosta

Crédito das imagens: Lena Tosta/etnofoco

Crédito das imagens: Lena Tosta/etnofoco

Lena Tosta é brasileira e antropóloga visual. Ela estava no Nepal durante o terremoto e vivenciou de perto suas consequências, criando um vínculo pessoal com o evento e com o país. Nesta fase final de seu voluntariado no país, ela se uniu a Simone Nascimento e lançou o Levanta Nepal, coletivo que promove projetos emergenciais de resgate das condições dignas de vilas arrasadas pelo terremoto. Confira, com exclusividade, todo o relato dessa história:

Responsabilidade Social.com – Por que você escolheu ir para o Nepal e o que estava fazendo lá antes dos terremotos?
Lena Tosta –
 Eu vim para o Nepal trabalhar em um filme sobre mulheres praticantes do budismo tibetano no final de janeiro. Terminado o trabalho, fiquei um pouco mais para filmar projetos autorais e fazer um trek em Dolakha. Como meu doutorado foi feito na Índia, pretendia em seguida ir visitar meu interlocutor principal em Himachal Pradesh, para mostrar a ele o “livro” (a tese) e o trabalho em multimídia que resultou dele, passar por Paris para visitar e filmar com a protagonista do meu último trabalho e só então voltar ao Brasil.

O grande terremoto de 25 de abril aconteceu alguns dias depois da volta a Kathmandu. Estava no meu hotel, ao lado da famosa praça central, o Durbar Square de Basantapur, quando as paredes começaram a mover em ondas. Minha primeira percepção da experiência foi curiosamente visual: as linhas retas, paralelas e perpendiculares, deixaram de existir! O concreto perdeu sua materialidade!”, pensei. Enquanto isso, agia sem pânico. Procurei um móvel sólido para me proteger e, quando não achei, me vesti rapidamente, peguei documentos e desci as escadas que balançavam com firmeza. Enquanto corria três lances de escada abaixo, minha mente registrava detalhes: o quadro com as mais altas montanhas do Himalaia nepalense espatifado pelo chão, uma oferenda de água e flores revirada.

Vivenciei o terremoto quase sem engajamento emocional, com uma equanimidade frente à morte iminente que até a mim surpreendeu. No entanto, quando encontrei a multidão na rua e me chegou a notícia da destruição de Durbar Square, foi outra história. Corremos para lá e nos deparamos com o pior cenário possível: os principais templos tinham sido totalmente arrasados, inclusive o Kashtamandap, um dos mais antigos dos Nepal e que dá nome a Kathmandu. Como eram os principais locais de encontro da praça, havia muita gente soterrada. De início, hesitei a me unir às pessoas que subiam nos destroços para tentar ajudar, retirando pedras e cavando manualmente, pois sei que podemos prejudicar mais que ajudar quando não temos conhecimento de como oferecer ajuda emergencial. Quando vi que as forças de resgate não chegavam, já que, do palácio que também ameaçava ruir havia caído enormes blocos de pedras, bloqueando o acesso aos veículos, acabei me unindo aos esforços da população, que conseguiu resgatar algumas pessoas com vida.

Em cima do templo dia terremoto2 copy

RS – Como você decidiu como e a quem ajudar após os tremores?
LT –  Como voluntária individual em uma calamidade de tal escala, só posso fazer um trabalho pontual, então queria que ele fosse o mais eficaz, ético e equitativo possível. Para tanto, precisava muito de informações confiáveis. Mas ao voltar da Índia, trazendo os estoques de remédio, o caos administrativo e de informação já estavam instalados. Por mais que trabalhos como o do quakemap.org tenham buscado coordenar informações sobre comunidades necessitadas e trabalhos realizados, houve muita doação em duplicata, concentração de mantimentos e invisibilização de comunidades inteiras por falta de informações confiáveis e atualizadas.

A pesquisa de necessidades e o planejamento de ações prioritárias foram os trabalhos mais penosos de todo o processo até agora. Busquei colaborar e aprender com sobreviventes, ongs, acadêmicos, jornalistas e outros voluntários, me aliei a determinados deles em ações emergenciais, aprendi o suficiente sobre os locais-alvo e fui a campo.

Depois de muitos obstáculos, foi mesmo a serendipidade que me levou a Sindhupalchok, distrito que mais sofreu em vítimas e desabrigados, onde grande parte das doações que me foram feitas vão ser investidas. Reencontrei a única brasileira que conheci em Kathmandu até o momento, Simone Nascimento, quando já pesquisava protótipos de abrigos. Estávamos no final de maio e a fase de doação de remédios e mantimentos básicos havia passado. As comunidades agora precisavam reconstruir abrigos confiáveis antes das chuvas de monção. Simone me contou sua experiência na vila de Jaundada, Ela havia conseguido mobilizar a população para a construção de uma casa, participando com troca de saberes, mão na massa e na doação do telhado. Após pesquisar melhor a a situação, avaliei que a comunidade era de fato necessitada e seu tamanho seria adequado ao alcance dos meus recursos. Naquela comunidade, poderíamos ajudar a todos por igual. Assim, criamos o Abrace Jaundada.

Tínhamos previsto muitas dificuldades na construção, faltava material no mercado e na região, assim como mão de obra na comunidade. Para garantir o abrigo emergencial, compramos protótipos pré-fabricados, aprovados pela comunidade. Mas, uma vez em campo (com os voluntários Suraj Tamang e Mikke Soussi, além de Max Borg, encarregado da escola), o trabalho fluiu. Com o estímulo certo, a comunidade se mobilizou para conseguir materiais locais e conseguiu erguer a base de todos os abrigos.

Ficamos na casa que a Simone havia projetado, onde passamos as primeiras grandes chuvas de monção. Por experiência própria, com um pequeno ajuste na calha, podemos dizer que o abrigo está aprovado! Em alguns dias estaremos de volta com o material para o telhado e o cimento para refazer os banheiros. O tempo em campo também me permitiu perceber as diferentes necessidades entre os membros da comunidade e estabelecer parâmetros para doações específicas, especialmente para viúvas em situação de extrema vulnerabilidade. Na nossa volta a Sindhupalchok, vou analisar a possibilidade de ajudar outra vila do município de Kunchok.

RS – Como foi o processo logístico da compra e distribuição de mantimentos básicos? Algum dos seus esforços ou tentativas de ajuda foram canceladas?
LT – As distribuições feitas por meu intermédio foram realizadas em conexão direta com contatos que eu tinha no local, mas, na ocasião de minha volta da Índia, a fase crítica de distribuição direta de alimentos já havia passado. A distribuição de remédios foi delicada, já que eu tinha muitos antibióticos e demorei para encontrar um grupo que tivesse profissionais que pudessem fazer uso adequado deles. O trabalho daqui em diante vai realmente ser concentrado na construção de abrigos e de banheiros e no fornecimento de ferramentas e utensílios domésticos.

RS – As comunidades são receptivas e apoiam suas ações?
LT –
 Sim, especialmente após termos passado a celebrar um happy hour diário com as famílias ao final do expediente, com cantos e danças nepalo-brasileiras. Brincadeiras à parte, ter ficado em Jaundada durante todo o trabalho, interagindo de forma jocosa, tem feito toda a diferença no engajamento da comunidade. Mas as experiências são variadas. Uma das comunidades se mostrou “receptiva demais” e, quando me aprofundei na pesquisa, percebi que de fato não precisava de ajuda. Em outro caso, uma comunidade que precisava recusou ajuda por motivos políticos vinculados a casta. Em Jaundada, tivemos uma saia justa com uma rivalidade interna, que foi resolvida com alguma diplomacia e conhecimento do sistema de parentesco.

Trabalhos Jaundada copy

RS – Essa é sua primeira vez fazendo trabalho voluntário?
LT – Não. Fui inspirada pela minha avó, Regina Laura Tosta, a me engajar desde a adolescência. Ela passou décadas trabalhando com as voluntárias do Hospital de Base de Brasília, onde fui iniciada. A verdade, entretanto, é que sou bem mais hedonista e menos disciplinada que ela.

RS – Por que fazer isso ao invés de voltar para o Brasil e ajudar com doações à organizações maiores?
LT – Porque minha conexão com o evento e com o país é pessoal. Eu já tinha a passagem para a Índia comprada quando o terremoto aconteceu, então embarquei no dia 27, como previsto. Estava com uma infecção importante no braço, tinha passado dois dias perambulando pelas ruas, quase sem comer ou dormir, sem poder sequer dar notícias à família, então segui meu plano sem pensar. Entretanto, uma vez em Délhi, refleti sobre a injustiça do meu privilégio, o de poder escapar e estar em segurança, e decidi retornar ao Nepal. Lembrei das pessoas que conheci, algumas das quais me contataram para pedir ajuda, e não consegui me ver simplesmente fazendo uma doação e voltando à minha rotina no Brasil. Também senti que, por ser antropóloga com experiência por aqui e um certo tanto de sangue frio, teria os instrumentos necessários para ajudar in locus com algum discernimento. Ademais, avaliei que eu conseguiria mobilizar familiares e amigas a ajudar o Nepal, caso soubessem que eu geriria o projeto. E estava correta. Agradeço todos os dias a confiança que depositaram em mim e me sinto honrada por estar conectada a tanta gente solidária.

RS – Na sua opinião, quando é melhor apoiar programas sociais existentes e quando é mais adequado criar o seu próprio, como você fez?
LT – Acredito que dependa de uma avaliação da confiança nas organizações, das condições político-administrativas locais e da eficácia e do custo de empreender em um esforço individual. No caso do Nepal, havia muitos rumores de desvios de verbas e informações confiáveis de entraves burocráticos sérios nas distribuições de mantimentos já no primeiro mês. A grandes organizações não estavam conseguindo chegar às comunidades rurais remotas. Eu já estava aqui e tinha disposição e meios. Por isso, resolvi encaminhar doações pessoalmente e também colaborar com outros movimentos locais e “de base” (grassroots), como o caso do Believers, do Rasuwa Relief, Work for Nepal, Helping Hands e Quakemaps.

Velhinha e destroços

RS – De que forma esse “trabalho de formiguinha” e ações individuais podem impactar a sociedade?
LT – Aqui no Nepal, pelas análises que tenho conseguido fazer, têm feito uma grande diferença, em especial quando se vinculam a movimentos locais (grassroot movements).  É consenso que tais movimentos, em conjunção com voluntárias individuais e ONGs menores, salvaram muitas vidas, em especial nos “gap cases”, como são chamadas as comunidades invisibilizadas no esquema oficial de distribuição. Sem elas, comunidades inteiras poderiam estar sem ajuda até hoje. No caso do Abrace Jaundada, com o montante de por volta de 4000 dólares arrecadados até agora, acredito já termos conseguido impactar profundamente a vida de pelo menos 150 pessoas e, nos esforços anteriores, aliviar o sofrimento de várias centenas de outras. É claro que, frente à dimensão da catástrofe, parece insignificante. Para me manter motivada, procuro me lembrar do poder da gota e do valor de cada sorriso.

RS – Qual o seu entendimento do termo ‘responsabilidade social’?
LT – Responsabilidade social, no meu entender, é um termo de um mundo corporativo que quer se colocar em concordância com o princípio da interdependência que fundamenta a vida e se nutre de uma das mais belas manifestações da nossa senciência, a da empatia.


Caso deseje contribuir, as doações podem ser feitas até 30/6/15 pelo Western Union em nome de Lena T. D. Tosta no endereço Jhochhen Tole, Basantapur, Kathmandu, Nepal, 44600. Aproveite para saber mais sobre o que será feito com sua doação e como os projetos funcionam aqui.

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