Heleno Costa Junior

Em entrevista exclusiva para o Responsabilidade Social.com, o coordenador de Educação do Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA), Heleno Costa Junior, fala sobre a gestão da sustentabilidade na área da Saúde. Segundo ele, a prática da responsabilidade socioambiental já é desenvolvida por algumas instituições do segmento no Brasil, mas ainda não é possível considerar como uma ação consolidada.

“Diversas iniciativas já foram adotadas e estão em efetiva implementação, mas são de caráter isolado, não representando a coletividade”, destacou. Na avaliação do especialista, a consciência sobre o tema vem se fortalecendo nos últimos anos e será, sem dúvida, uma política institucional necessária para manutenção do negócio dentro do contexto da saúde.

Criada de acordo com o novo Código Civil Brasileiro, que regulamenta todas as atividades institucionais sociais, a CBA tem por missão contribuir para a melhoria da qualidade do cuidado aos pacientes nos hospitais e demais serviços de saúde no país, por meio de um processo de acreditação. O trabalho é realizado em parceria com a maior e mais importante organização de acreditação no mundo, a Joint Commission International, e objetiva, principalmente, garantir a qualidade diferenciada dos produtos oferecidos aos pacientes. Na entrevista, Heleno Junior fala sobre o processo de acreditação no setor, os principais aspectos considerados para a certificação de uma instituição no país e como as ações de responsabilidade social e ambiental tem evoluído no segmento. Acompanhe.

1) Responsabilidade Social – Como funciona o processo de acreditação e quais os principais pontos avaliados?
Heleno Costa Junior – O processo de acreditação internacional CBA-JCI contempla, por meio dos manuais e seus respectivos padrões, um conjunto de requerimentos diretamente relacionados com a segurança nos cuidados prestados aos pacientes, que é o foco principal do processo em questão. Um dos capítulos do manual é denominado “Melhoria da Qualidade e Segurança do Paciente”. Nesse capítulo estão incluídos padrões que tratam do gerenciamento dos eventos que podem comprometer a segurança da assistência, sendo esses os eventos adversos e eventos sentinelas, esses últimos que implicam na morte ou perda grave e permanente de funções. Nesse caso a instituição de saúde e os profissionais devem adotar ações pró-ativas, visando identificar, analisar e monitorar riscos potencialmente relacionados com a ocorrência desses tipos de eventos.

Outro capítulo de destaque trata das “Metas Internacionais de Segurança do Paciente”, definidas a partir de um trabalho conjunto com especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS), da qual a Joint Commission International é parceira e colaborada do Centro Internacional de Soluções para Segurança do Paciente (http://www.ccforpatientsafety.org). As metas incluem, entre outras ações, a identificação correta de pacientes, a segurança na utilização de medicamentos de alta vigilância e a segurança na realização de cirurgias seguras. A adoção de políticas, procedimentos, rotinas e protocolos assistenciais garantem o estabelecimento do melhor e mais apropriado padrão de assistência aos pacientes e familiares, segundo o perfil assistencial da instituição.

2) RS – Como o setor da Saúde lida com as ações de responsabilidade social e ambiental? Já é uma prática consolidada?
HJ
– A prática da responsabilidade social e ambiental já é adotada e desenvolvida por algumas instituições de saúde, mas não podemos considerar, nesse momento e nesse contexto, como uma ação consolidada. Diversas iniciativas já foram adotadas e estão em efetiva implementação, mas são de caráter isolado, não representando a coletividade das instituições de saúde. No entanto, vale ressaltar que a visibilidade e a consciência sobre o tema vêm se fortalecendo nos últimos anos e será, sem dúvida, uma política institucional necessária para manutenção do negócio dentro do contexto da saúde.

3) RS – Quais requisitos de avaliação de acreditação internacional de uma unidade hospitalar são levados em conta em relação aos projetos e ações voltados ao meio-ambiente e sustentabilidade?
HJ
– O manual de acreditação tem todo um capítulo dedicado ao “Gerenciamento do Ambiente Hospitalar”, que leva em conta as ações de gerenciamento das instalações e segurança. Nessa parte vários aspectos são considerados para a gestão do ambiente, a começar pelo completo e adequado atendimento aos requerimentos legais e regulamentos nacionais, estaduais ou municipais vigentes e aplicáveis ao conjunto de serviços e estrutura da instituição.

As lideranças institucionais devem atender e manter toda essa legislação, o que atualmente inclui diversos aspectos de manutenção e sustentabilidade dos elementos ambientais, como a coleta, segregação e adequado armazenamento e destinação de todos os resíduos de serviços de saúde produzidos na instituição. Alguns hospitais já adotaram o uso de coleta seletiva e a tecnologia de compactação das toneladas de lixo produzidas diariamente pelos diversos departamentos.

Também os aspectos de identificação e contenção na ocorrência de derramamento de resíduos tóxicos, como os produzidos nas unidades diagnósticas de radiologia ou laboratórios clínicos. Podemos incluir também o tratamento de esgotos e afluentes, antes de dispô-los na rede pluvial. Por fim, a instituição deve definir e estabelecer um consistente e abrangente programa de gerenciamento, com mecanismos de monitoramento constante das instalações e do próprio ambiente, garantindo total segurança aos pacientes, profissionais e demais ocupantes, resguardando a qualidade em todos os seus aspectos.

4) RS – O que os hospitais têm de fazer para serem acreditados nesse sentido?
HJ
– Atender aos requisitos previstos nos capítulos de “Gerenciamento das Instalações e Segurança” e de “Governo, Liderança e Direção”. Em todos os hospitais até o momento acreditados, foi necessária uma significativa mudança nos conceitos e formas de gerenciamento do ambiente, a começar pela contratação de profissionais especializados e de dedicação a esses segmentos de serviços. Isso inclui engenheiros e técnicos de segurança ambientais e do trabalho, que desenvolveram elaborados programas de gerenciamento e monitoramento,com estratégias especificas para dar conta dos requerimentos dos padrões do manual de acreditação, assim como dos requerimentos legais recentemente publicados pelos órgãos oficiais e governamentais.

A agregação desses profissionais ao trabalho das Comissões de Controle de Infecção e de Medicina e Segurança do Trabalho tem gerado expressiva mudança de comportamento nos profissionais que atuam nessas instituições, fazendo criar nova consciência sobre esta questão da sustentabilidade e manutenção da qualidade do ambiente.

5) RS – O que o senhor entende por ‘responsabilidade social’?
HJ
– A responsabilidade social está mesmo na essência do negócio e da missão de qualquer instituição de saúde, pois a saúde é, como definido na própria Constituição Federal, universal e deve ser garantida para todos, sem distinção. Mesmo no caso das instituições privadas, fica clara a necessidade de garantir não somente tratamento de uma doença, mas sim a de considerar o paciente/cliente como um indivíduo em todas as suas dimensões e necessidades. Desenvolver educação, gerando a prevenção e promoção de agravos à saúde, o que toda instituição de saúde tem a obrigação de realizar, é uma ação de responsabilidade social.

Além dessa, as iniciativas voltadas a desenvolver processos de melhoria de saúde em sua própria comunidade e outras comunidades relacionadas, como a geográfica de sua região, devem também ser adotadas como atitudes de responsabilidade social. No processo de Acreditação Internacional desenvolvido pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação e Joint Commision International, essa questão é diretamente tratada em seus manuais e padrões, no tocante ao Capítulo do Governo, Liderança e Direção. De forma ilustrativa, a instituição deve, portanto, extrapolar seus limites e buscar interagir e melhorar a sua comunidade como um todo, não apenas atuando como “tratador de doenças”.

6) RS – Investir em meio ambiente e sustentabilidade é uma tendência?
HJ
– Totalmente. Aqueles que ainda não ingressaram nessa tendência terão pouco tempo para fazê-lo, pois além da “política do socialmente correto”, já ser praticada em todo o mundo, no Brasil começa a emergir uma legislação específica e rigorosa sobre essa questão. Embora uma instituição de saúde seja o centro para tratar de doenças, nessa sua missão a grande produção de resíduos e elementos tóxicos ao ambiente e aos indivíduos deve ser tratada como uma questão prioritária para a manutenção da qualidade de vida de todos.

7) RS – Para o senhor, como o tema de responsabilidade social evoluirá no setor nos próximos anos?
HJ – O tema já tem evoluído no âmbito das discussões e eventos, mas como citado anteriormente, ainda não de forma consistente. As instituições de saúde têm se apropriado de novos conceitos e formulações de estratégias visando entender e atender ao que solicita a responsabilidade social e ambiental. A própria legislação brasileira também tem contribuído com esse movimento. Por exemplo, o devido tratamento e destinação de resíduos de serviços de saúde, incluindo o seu lixo, agora tem regulamentos específicos, recentemente publicados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o que vem minimizando o fato de que as instituições de saúde contaminem ou prejudiquem o ambiente com descartes inadequados de seus resíduos.

Além da legislação, programa de certificação como a própria Acreditação e outros de caráter específicos, definirão novos parâmetros e requerimentos para as instituições de saúde, criando um claro diferencial entre aquelas que efetivamente praticam a responsabilidade social e ambiental daquelas que têm iniciativas incipientes ou isoladas. Algumas entidades associativas na área de saúde já estão exigindo essas certificações para incluir novos membros em seus seletos grupos, o que também definirá novas perspectivas nesse ambiente da responsabilidade social e ambiental.

8) RS – Que medidas o senhor elege como prioritárias para o setor ser considerado sócio-responsável?
HJ
– Em primeiro lugar, o estabelecimento, divulgação e implementação sistemática de políticas e práticas sociais e ambientais de caráter institucional. Depois, o completo e efetivo cumprimento de todas as leis e regulamentos aplicáveis no âmbito da prática social e ambiental, de caráter federal, estadual e municipal. Em seguida, a busca de certificações válidas e reconhecidas no cenário nacional e internacional, a partir de entidades certificadoras/acreditadoras de credibilidade. Por fim, que as ações sócio-responsáveis possam ser monitoradas e consideradas como elementos de avaliação de performance e desempenho das instituições no âmbito de sua comunidade, tendo representantes da própria comunidade e terceiras parte como integrantes desse sistema de avaliação.

9) RS – A busca pela acreditação tem crescido nos últimos anos? O que explica esse aumento?
HJ
– A acreditação internacional no Brasil tem avançado de modo progressivo e consistente. Não somente pelo aumento do número de instituições de saúde que ingressaram ou já alcançaram o certificado, mas também pelo crescente interesse e pelas novas perspectivas que se configuram no movimento da qualificação do setor saúde o Brasil.

Cada vez mais as instituições buscam diferenciais e modelos competitivos baseados em selos ou programas de qualidade. A Acreditação Internacional desenvolvida pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação, representante exclusivo da Joint Commission International no Brasil tem sido um desses diferenciais na medida em que a melhoria da qualidade é uma garantia de melhores práticas e resultados assistenciais, tendo a segurança como elemento central.

A carteira de clientes do CBA-JCI, representada por instituições de reconhecida referência no Brasil denota essa qualidade como diferencial, incluindo Hospital Israelita Albert Einstein, Hospital Sírio Libanês, Hospital do Coração, Hospital Samaritano, Hospital Moinhos de Vento, Hospital Alemão Oswaldo Cruz e Hospital Copa D’Or, entre outros.

Um movimento que também vem colaborar fortemente com o avanço da acreditação no Brasil é o trabalho que vem sendo desenvolvido na Agência Nacional de Saúde Suplementar, cujo objetivo será a criação de um modelo de acreditação para as Operadoras e Seguros de Saúde. Esse modelo prevê que essas empresas também passem a considerar e solicitar um processo de qualificação para a sua rede credenciada e o indicativo nas discussões dos grupos técnicos já em andamento, apontam que a acreditação será um referencial para essa qualidade exigida das instituições de saúde credenciadas.


Consórcio Brasileiro de Acreditação - Telefone: (21) 3509-4243

Também nessa Edição nº: 97
Perfil: Soraya Hissa de Carvalho
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