Fernando Alves

Fernando Alves, diretor da Rede Cidadã

Fernando Alves, diretor da Rede Cidadã

A Rede Cidadã é uma ONG fundada em Belo Horizonte (MG), que tem atuação nacional, atendendo 45 cidades de 9 estados brasileiros. Em seus 13 anos de atuação, já ajudou a capacitar e inserir mais de 42 mil pessoas de todas as idades (jovens, adultos e seniores) no mercado de trabalho em todo o Brasil. Todo o atendimento oferecido para as pessoas atendidas pela Rede Cidadã é gratuito. A Rede Cidadã é focada na geração de renda e trabalho para pessoas de baixa renda. Para isso, oferece cursos de capacitação para os jovens, adultos e seniores atendidos. Depois de passarem pelos cursos, são encaminhados para preencher vagas de trabalho.

Importante ressaltar que os participantes somente são encaminhados para cargos que estejam em consonância com seus perfis profissional e pessoal – e essa análise de perfil é realizada durante o atendimento prestado pela Rede Cidadã. Para tal, usam metodologias e ferramentas específicas para essa finalidade, tais como o Profiler e a Sala de Valores. Todo o trabalho é desenvolvido com base na metodologia exclusiva da Rede Cidadã: a Rede de Geração de Trabalho e Renda – RGTR, que é focada na criação parcerias entre os três setores (público, privado e organizações sociais). O objetivo dessas parcerias é criar uma rede colaborativa que direciona recursos humanos, físicos, financeiros e sociais para o desenvolvimento humano. A metodologia RGTR se apóia na Responsabilidade Social e no Voluntariado como forma de mobilizar recursos para transformação da realidade.

Confira a entrevista exclusiva realizada com Fernando Alves, diretor da Rede Cidadã, para o ResponsabilidadeSocial.com.

Responsabilidade Social – Como surgiu a proposta da Rede Cidadã e como sua atuação evoluiu ao longo desses 13 anos?
Fernando Alves – A proposta da Rede Cidadã surge exatamente inspirada no movimento de Responsabilidade Social Empresarial, quando percebemos que as empresas queriam contribuir com o desenvolvimento social, mas essa contribuição é limitada – afinal, essa não é a missão precípua da empresa. Por sua vez, observávamos que o Estado, governos, não dava conta de todas as dimensões das demandas sociais. E o Terceiro Setor, que havia sido criado para com foco no desenvolvimento de temas que não eram resolvidos pelos demais setores da economia, se vê dependente de recursos públicos e privados. Com isso, havia a necessidade de se promover a complementaridade de iniciativas dos três setores, de se criar condições para fazer emergir a sinergia de esforços entre governo, empresas e organizações sociais. A realidade exigia a construção de colaboração entre os diferentes atores econômicos e sociais, era necessário estabelecer uma colaboração em rede.

A Rede Cidadã foi criada para promover o desenvolvimento da cidadania por meio da formação de uma rede que pudesse convergir governo, empresas e ONG    s, e ainda contar com a cidadania ativa, expressa no trabalho voluntário.

Em 2002, quando fundamos a Rede Cidadã, o conceito de rede ainda era muito incipiente e ligado ao campo da informática e da internet que dava seus primeiros passos no Brasil. Para se ter uma ideia, o Instituto Ethos de Responsabilidade Social Empresarial havia sido criado em 1998, há apenas quatro anos. Em 2002, a Rede Cidadã representou uma novidade ao apresentar a formação de uma rede social real e não virtual, uma rede de ações complementares, de efetivas operações entre instituições e pessoas, criando valor social, por meio de projetos sociais de geração de trabalho e renda. Os nossos resultados só foram possíveis nas dimensões de escala em que aconteceram e acontecem porque atuamos em sinergia o tempo todo.

Nesse período, desde 2002, a Rede Cidadã alcançou a marca de 43.807 jovens incorporados na vida profissional. Foram 1.434 empreendimentos apoiados, 728 pessoas com deficiência inseridas no mundo do trabalho, 2.652 voluntários envolvidos, 676 organizações sociais atuando em nossa rede e 1.942 empresas parceiras com contrato assinado em todo o país.

A Rede Cidadã verdadeiramente teceu uma rede social colaborativa nestes anos, e hoje representamos a força de um capital social estabelecido.

RS – Quais são as principais metas e desafios da organização para 2015?
FA –
Neste momento, a Rede Cidadã está passando por uma espécie de reformulação, com o objetivo de se tornar ainda mais abrangente. Ao longo de nossa primeira década de atuação, grande parte de nossos esforços estava concentrado em contribuir para a empregabilidade das pessoas, ajudando-as a gerar renda. O resultado foi que conseguimos inserir cerca de 43 mil brasileiros, de todas as faixas etárias, no mercado de trabalho. Não por acaso, o slogan da organização, “Vida e trabalho, um só valor”, espelha que todas as atenções de seus membros e parceiros, desde que tudo começou, em 2002, está na geração de emprego e renda.

Para isso, a Rede Cidadã acredita que não basta investir em capacitação. É preciso ir adiante. Queremos mostrar que o trabalho representa muito mais na vida das pessoas, pois seu significado está muito além do fato de possibilitar que haja dinheiro em casa. Nossa intenção é demonstrar que, por meio dele, as pessoas realizam o seu projeto de desenvolvimento humano, tendo ou não consciência disto. O trabalho é fonte de vida, de autoconhecimento e de superação dos desafios pessoais, sejam no próprio trabalho ou na vida. É no trabalho que as pessoas aprendem a viver, e não o contrário. Por isso, não podemos pensar apenas em capacitações técnicas, precisamos levar as pessoas para a estrada do autoconhecimento, para exercitar o controle do seu desenvolvimento emocional, como caminho da maturidade capaz de integrar os valores da vida e do trabalho. Ninguém faz carreira profissional, as pessoas fazem carreira existencial onde vida, e trabalho, são construídos de modo indissociável.

Outra importante meta prevista para 2015 é atingir, até outubro, quando completaremos 13 anos de atuação, o número de 50 mil pessoas inseridas no mercado de trabalho. Acreditamos que este objetivo será alcançado já que, apenas em fevereiro deste ano, registamos 1047 contratações contra 641 no mesmo período de 2014, ou seja, um crescimento de 63,4%.

RS – A Rede Cidadã capacita brasileiros de todas as idades. Existe uma dificuldade maior em inserir no mercado de trabalho os grupos dos seniores e dos deficientes? Foi observando isso que surgiu a Rede Sênior?
FA –
Acreditamos que as pessoas com deficiência são trabalhadores e empreendedores comuns e que basta a remoção de barreiras para que eles tenham condição de desempenhar atividades profissionais eficazes. Mas sabemos que ainda há impedimentos a serem vencidos para que eles tenham atuação ainda mais forte dentro do quadro de funcionários das empresas em todo o país. De maneira semelhante, observamos que falta espaço para a atuação dos seniores. Sabemos que a presença massiva do sênior no mercado de trabalho já é uma realidade em países da Europa, por exemplo. Temos dados demográficos que demonstram que o Brasil se tornará um país de idosos em poucos anos. A expectativa de vida vem crescendo enquanto as taxas de natalidade continuam a cair. Precisamos conscientizar as pessoas de que uma nova sociedade já está se formando e os seniores precisarão manter-se no mercado de trabalho por mais tempo.

Os trabalhadores seniores têm características únicas e muito bem vindas no mundo corporativo. Para citar algumas, podemos mencionar a pontualidade, o empenho em cumprir as atividades, a receptividade, a simpatia. Também há aspectos que beneficiam diretamente a empresa contratante, como economia com transporte público (para os profissionais acima de 65 anos), menor taxa de absenteísmo e redução do turn over. Tivemos resultados inspiradores no projeto piloto da Rede Sênior, como a senhora que teve uma melhora considerável na sua saúde física e psicológica; ela disse que parou de tomar a bateria de remédios quando começou a trabalhar. Manter-se produtivo é essencial para um envelhecimento de qualidade, e esse é um dos pilares que buscamos desenvolver com o projeto Rede Sênior.

RS – Como é realizada a seleção dos voluntários que atuam na capacitação dos jovens?
FA – 
O incentivo ao trabalho voluntário é um eixo importantíssimo desenvolvido dentro da Rede Cidadã. Os voluntários podem contribuir de várias formas. Todo profissional tem um conhecimento que pode ser disponibilizado para jovens, e mesmo para outros adultos, que podem aprender com a experiência de vida e de trabalho de um voluntário. Nós percebemos que um treinamento realizado por um voluntário possui mais força do que o treinamento dado por um profissional remunerado. O voluntário transpira valores pelo próprio fato de estar ali como voluntário, não está cumprindo tabela, por assim dizer. No projeto social, isso faz toda a diferença. Por isso, contamos com profissionais voluntários para os treinamentos de jovens e adultos, e contamos profissionais experientes em gestão para fazerem mentorias em gestão de negócios para os empreendedores que apoiamos.

RS – Como funciona a metodologia de Rede de Geração de Trabalho e Renda (RGTR)?
FA – 
Ao se inscrever em busca da colocação profissional, o candidato será encaminhado para o processo preparatório de ingresso no mercado de trabalho da metodologia Rede de Geração de Trabalho e Renda (RGTR), desenvolvida originalmente pela Rede Cidadã. A porta de entrada é a Sala de Valores e Sonhos, e nesta etapa o jovem conhece os valores e os compromissos da Rede Cidadã, sendo questionado sobre seus valores e compromissos com a vida e o trabalho. A Sala de Valores foi criada para restaurar o valor de trabalho na vida. Todavia, a Rede Cidadã, ao despertar nos jovens o sentido dos valores do trabalho, também assume um compromisso com os sonhos dos jovens, sonhos que poderão ser conquistados por meio de seu próprio esforço, contando com o mundo do trabalho para alcançar essa realização.

No passo seguinte, os jovens respondem ao Profiler, uma ferramenta que promove a leitura de competências inatas do jovem. Para a grande maioria dos jovens é a primeira vez que eles têm acesso a uma leitura de suas competências, o que impacta muito positivamente no seu autoconhecimento. Conhecer as competências dos jovens é fundamental para assegurar colocar o jovem certo na vaga certa, promovendo o cruzamento das competências dos jovens com as competências requeridas pelas funções de uma oportunidade numa empresa parceira da organização. Na sequência, o jovem participa dos cursos de orientação profissional prática (OPP), com dicas para elaboração de currículo, simulação de um processo seletivo, e participa da análise do teste Profiler. Após essa etapa, o candidato é encaminhado para o Banco de Talentos da instituição e será comunicado tão logo seja encontrada uma oportunidade compatível e de seu interesse.

Rede Cidadã

RS – De que forma a agenda de responsabilidade social empresarial avançará no Brasil na próxima década?
FA – 
A vitória do movimento de responsabilidade social vem com a integração das dimensões do social aos objetivos econômicos das empresas. O mesmo pode-se dizer a respeito dos aspectos de impacto ambiental. O mundo dos negócios caminha para que o tripé da sustentabilidade caminhe de forma integrada. Os principais líderes de negócios de todo o mundo já estão convencidos disto, agora é uma questão de tempo. E precisamos correr porque o planeta já avisou que não suporta mais o mesmo modelo de produção e consumo que nos trouxe aos dias atuais.

RS – Na sua opinião, as políticas socioambientais adotadas pelas empresas são, atualmente, jogada de marketing ou preocupação legítima?
FA – 
Não existe mais espaço para jogadas de marketing quando o tema é sustentabilidade. A sociedade tem amadurecido, os consumidores estão aprendendo a consumir e a defender seus interesses com muita determinação. E as pessoas já estão cansadas de viver uma vida sem significado. A vida está sendo revalorizada. Os avanços da tecnologia e das fontes de informação permitiram o acesso ao conhecimento de forma muito ampla. Existem inúmeros movimentos em defesa da qualidade de vida. As pessoas não estão aceitando mais serem apenas fonte de riqueza financeira, as pessoas deste milênio querem viver, ser felizes, criar seus filhos com visão de um futuro sustentável. As empresas são feitas de pessoas, por isso as empresas não podem mais enganar a si mesmas. A humanidade caminha para a lucidez, ainda que muitas distorções ainda sejam percebidas.


Rede Cidadã - Telefones: (31) 3290-8000

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