Fábio Eon

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Em comemoração a sua 200ª edição, o Responsabilidade Social.com entrevistou Fábio Eon, co-fundador da revista eletrônica, sobre sua expectativa e lembranças quanto a trajetória do site. Essa retrospectiva abarca realizações, conquistas e desafios no que toca a responsabilidade social empresarial no Brasil.

Responsabilidade Social – Qual foi sua intenção ao lançar uma revista eletrônica sobre responsabilidade social?
Fábio Eon – 
Quando montamos o site em 2002 tínhamos uma ideia despretensiosa, voluntarista e quase ingênua até de criarmos um portal que pudesse agregar informações úteis sobre responsabilidade social. Na época havia voltado de uma temporada na Europa onde trabalhei como consultor na área de responsabilidade social empresarial, em particular na elaboração de relatórios de sustentabilidade para a indústria do petróleo. Não havia no Brasil, com raras exceções como o trabalho bem conduzido pelo Instituto Ethos, referências eletrônicas sobre o assunto ou mesmo uma literatura nacional consolidada sobre o tema.

Esse movimento ainda ganhava corpo e estava preso a uma grande confusão conceitual ligada à filantropia ou iniciativas pontuais com pouco impacto concreto na vida das comunidades. Quando havia algum material disponibilizado, normalmente eram conteúdos relativamente áridos, herméticos ou exclusivamente voltados a determinados ramos da indústria.

A proposta que tínhamos era criar um expediente ágil, no caso uma revista quinzenal, gratuita e em meio eletrônico, que possibilitasse a diversas audiências – fossem do terceiro setor ou mesmo leigos, porém interessados no assunto – aprofundar mais seus conhecimentos na área e também tomar contato com iniciativas interessantes sendo desenvolvidas no Brasil. O site conseguiu construir essas ligações e permitiu um rico intercâmbio de experiências entre instituições ou projetos que tiveram suas estórias e experiências contadas no nosso portal.

RS – Essa intenção foi cumprida ou ainda há muito terreno a se conquistar ainda?
FE – 
Sim e não.  Sim, pois apesar dos percalços conseguimos manter a revista – sem interrupções – por mais de 10 anos. Produzir conteúdo próprio com uma equipe reduzida é sempre um desafio, mas conseguimos manter esse padrão de qualidade ao longo de tanto tempo.

Por outro lado, persistem alguns desafios. O principal deles é qualificar melhor o segmento envolvido em projetos ligados ao terceiro setor. Há um grande número de projetos e iniciativas recheadas de mérito e boas intenções, porém muitas vezes as pessoas engajadas em iniciativas de responsabilidade social poderiam se beneficiar de um instrumental mais adequado.  A grande maioria dos projetos sociais no Brasil não é emancipatória ou tem pouco impacto no real empoderamento das pessoas. Some-se a isso o fato que muitas vezes o recurso investido é feito de maneira equivocada e projetos carecem de avaliações ou reflexões mais aprofundadas sobre que resultados esperam de fato alcançar. Esse é um universo que precisa ainda ser mais bem estudado.

Outra ambição nossa é fazer com que as pessoas interessadas em trabalhar na área enxerguem essa possibilidade como uma oportunidade concreta, capaz de realizá-las pessoalmente. Há um enorme espaço para o voluntariado e terceiro setor no Brasil, muitas vezes com uma enorme carência por profissionais qualificados.

RS – Como você se sente ao ver o ResponsabilidadeSocial.com completando 200 edições?
FE – Obviamente muito feliz e realizado. Como disse, sempre pensamos inicialmente no portal como uma plataforma simples, colaborativa e voltada a diversos públicos, entre eles jornalistas, ONGs, institutos, empresas, fundações e mesmo estudantes interessados em saber mais sobre os desafios nacionais ligados ao desenvolvimento sustentável e inclusão social. Hoje, conforme sondagens que realizamos, temos um público-leitor bem eclético que abrange, de forma relativamente uniforme, os grupos acima e é bem distribuído por todo o país.

De uma proposta relativamente modesta, chegamos hoje a mais de 50 mil leitores cadastrados. É muito gratificante receber e-mails e relatos de instituições que muitas vezes se serviram do nosso conteúdo para iniciar projetos ou tiveram no nosso site os elementos ou pontes necessárias para intercambiar com outras instituições ou empresas projetos ligados à sustentabilidade ou desenvolvimento social.

Muitas das pessoas ou instituições que entrevistamos realizam um trabalho sério, árduo e que merece ser ouvido. O nosso site permitiu muitas vezes dar voz a esses projetos e assegurar que reverberassem nacionalmente.

É preciso também dar o crédito a todas as pessoas que foram responsáveis por essa trajetória. A Daniela Guima, antiga editora do site, foi o grande pilar dessa experiência. Ela conduziu, com grande profissionalismo e dedicação, os anos iniciais da nossa revista. Posteriormente a Cynthia Ribeiro desempenhou um papel igualmente importante e soube fazer muito bem essa transição, procurando sempre renovar nosso conteúdo e evitar a redundância ou repetição. Agora, mais recentemente, temos o Máximo Migliari e Jens Schriver na figura dos atuais diretores da revista. Ambos tiveram a sensibilidade de investir nesse projeto e se envolver de forma ativa na realização desses sonhos comuns. A experiência de ambos em programação e gestão de conteúdo online repaginou consideravelmente o nosso site, tanto do ponto de vista estético quanto funcional. Não poderia também deixar de registrar o papel central da Luisa Cavalcanti, hoje responsável pelo conteúdo do site e por uma gradual guinada editorial com vistas a matérias focadas no mundo corporativo e empresarial.

RS – Qual o maior caso de realização na sua visão? Alguma história contada no site que te marcou nesses mais de 10 anos da revista?
FE – Não cometeria essa injustiça com os demais entrevistados ou colaboradores (risos). Mas confesso que sempre tivemos uma preferência por histórias de vida ou relatos de superação. Uma das matérias que mais me impressionou foi escrita pela Daniela Guima quando entrevistou o psicólogo Fernando Braga da Costa, autor do livro “Homens Invisíveis – Relatos de uma Humilhação Social”. A entrevista mostrava o triste fenômeno da “invisibilidade” pelo qual passa o Brasil. Muitas vezes criamos uma indiferença ou insensibilidade ao próximo. Há ainda uma enorme falta de solidariedade para com o próximo. Naquela matéria – focada mais especificamente em prestadores se limpeza urbana – era possível notar de forma clara o quanto nossa sociedade ainda é, infelizmente, fragmentada e segregada. Como disse Betinho, “é importante ver, com os dois olhos, os dois lados para mudar uma única realidade, a que temos”.

RS – O que é preciso avançar no que toca a responsabilidade social empresarial no país?
FE – Acho que estamos no caminho certo. Não queremos obviamente que o setor privado preencha uma lacuna do Estado ou cumpra funções que não lhe são de origem. Queremos, no entanto, possibilitar os arranjos necessários para que todos – governo, setor produtivo e comunidade – enxergam sua responsabilidade coletiva pelo bem estar de todos e pelo meio ambiente.  De modo geral, o empresariado brasileiro tem sido cada vez mais sensível a essa causa e tem enxergado que desenvolver sua cidadania empresarial é hoje uma questão de sobrevivência.

Abraçar essa causa não deve ser vista como uma preocupação de marketing ou do RH das empresas. Organizações que se destacam nessa área, não apenas aumentam sua aceitabilidade, mas também criam laços importantes com a comunidade e com seus empregados. Isso sem falar na própria lógica econômica por trás de um comportamento socioambiental correto, que reduz riscos e custos, inclusive judiciais, em médio prazo.

Onde podemos avançar um pouco mais é no sentido, como comentei anteriormente, em uma maior profissionalização do setor, inclusive com capacitações e senso crítico mais apurado sobre o que queremos como modelo de desenvolvimento. Precisamos pensar em um novo modelo de desenvolvimento econômico, contanto que seja um modelo sustentável, inclusivo e menos calcado no consumismo. Marcos jurídicos mais claros, melhor regulação e novas políticas de incentivo – inclusive fiscais – seriam igualmente bem-vindos nesse contexto.


Fábio Eon é Cientista político e mestre em Gestão para o Desenvolvimento pela Universidade de Londres (University College of London). Professor e ex-consultor de responsabilidade socioambiental de mineradores e distribuidoras de petróleo.

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