Alessandra Moura

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Alessandra Moura é empreendedora social, educadora, gestora e advogada. Ela atua no campo social desde 1982, quando começou como educadora voluntária em projetos sociais e educacionais para crianças no Brasil e depois exerceu seu primeiro cargo de gestão social, desenvolvendo a estratégia de RH para voluntariado de uma ONG. Em 2005, foi residente social Comunicarte (Agência de Responsabilidade Social) e, desde então, foi gestora social em diversos programas de responsabilidade social de peso como da Petrobras, da Rede Globo e do grupo Oi. O programa OiTonomundo, por exemplo, alcançava 26 Estados, mais de 600 escolas púbicas e beneficiava potencialmente 650 mil estudantes e 7 mil professores da rede pública brasileira. Confira a entrevista exclusiva que Alessandra deu para o Responsabilidade Social.com:

Responsabilidade Social – Você atua no campo social desde 1982. A que atribui o surgimento desse interesse?
Alessandra Moura – Atribuo o meu interesse à única forma que alguém por ser influenciado: ao exemplo (parafraseando Albert Schweitzer). Comecei a trabalhar em projetos sociais muito jovem, com 14 anos. Eu era bandeirante em São Paulo e o grupo de Escoteiros que tinha suas atividades no mesmo local precisava de voluntários que fossem fluentes em inglês para apoiar o desenvolvimento de um novo ramo, em caráter experimental, com crianças de 4 a 7 anos. Os materiais eram todos da Canadá e precisavam ser traduzidos, a metodologia aplicada e adaptada à nossa cultura e aos nossos valores. Meus pais se voluntariaram para traduzir o material por escrito como uma forma de agradecer ao demais voluntários que lideravam as atividades. E eu me senti atraída pelo desafio também. Deixei de ser beneficiária para ser facilitadora do programa com as crianças pequenas. E foi aí que educação para valores, a atuação da sociedade civil organizada e o voluntariado para o desenvolvimento social virou meu interesse favorito.

RS – Qual foi sua intenção ao fundar uma empresa social de desenvolvimento de pessoas e treinamentos profissionais especializada em educação para sustentabilidade?

AM – Meu gol é libertário. Tenho uma proposta educativa, ao invés de consultiva. Como padrão, as consultorias não transferem – de verdade – seu conhecimento. Até desenvolvem seus clientes quando atuam como parcerias, mas desejam cativa-lo, muitas vezes funcionando como terceirizados. Não me encaixo neste perfil pois nada dá mais prazer do que um cliente que vira um amigo ou um parceiro de negócios porque aprendeu muito, levantou asas e voou.
A empresa é social porque contribui para o desenvolvimento socioambiental, busca resultados econômicos justos e alta qualidade para se firmar com solidez no mercado.

RS – Essa intenção foi cumprida ou ainda há muito terreno a se conquistar ainda?

AM – Sim e sim. Procuramos sistematizar nossas atividades para que não existem caminhos que a nossa empresa percorra que não possam ser percorridos também pelos nossos clientes. Acertos e erros são mapeados e compartilhados com transparência. Assim os resultados e aprendizados são cooperativos e colaborativos. Todos saem fortalecidos, se quiserem. Tenho convicção que ninguém ensina ninguém. As pessoas aprendem quando, como e com quem querem. E neste ponto, o afeto do facilitador do aprendizado é fundamental para o sucesso na aprendizagem. Talvez por isto eu tenho muitos amigos, que um dia foram meus clientes ou fornecedores, no país inteiro.
Por outro lado, sou uma empreendedora social relativamente nova, criei a empresa em 2013 e este ano vou reposicioná-la totalmente, inclusive sua marca. Quem se propõe a desenvolver um negócio social deve ser muito cuidadoso porque a humanidade não tem mais tempo para erros neste campo. Por isto, também não temos tempo para ter pressa (demais) e deixar de planejar com foco no público. E mulheres tem que ainda mais zelo, já que o Brasil, entre outros desafios específicos, tem uma cultura arcaica e desinteligente para aproveitar o potencial feminino. No meu caminho como empreendedora social, conto com o apoio de parcerias feministas, tanto de mulheres como de homens com coragem para ter uma visão feminista. A Escola de Negócios do SEBRAE/SP tem sido também uma referencia apoiando o empreendedorismo feminino consciente.

RS – Qual o maior caso de realização na sua visão? Alguma história ao longo de tantos projetos sociais que te marcou? 

AM – Presenciei muitas histórias bacanas, mas quero mencionar uma relativamente recente. Uma destas amigas-parceiras que me apoiam é assessora de sustentabilidade da Prefeitura de Petrópolis, no RJ. Soubemos que a Secretaria de Educação havia aprovado uma projeto experimental para transformar uma escola pública muito vulnerável em comunidade de aprendizagem, com assessoria do professor José Pacheco, co-idealizador da Escola da Ponte em Portugal. No entanto, não havia recurso para um projeto desta magnitude no orçamento público. Um investidor social com o perfil certo cruzou meu caminho e a “magia” aconteceu. Brincadeira; não foi magia, foi muito trabalho! Foi necessária a articulação de oito pontas entre iniciativa privada, publica e privada com fins públicos, algumas precisaram de apoio para ampliar sua visão estratégica sobre educação sustentável. Agora, como observadora, aprendiz e apoiadora, saboreio o desenvolvimento orgânico e revolucionário do Projeto Independência. Foram “clientes”, hoje são amigos: final perfeito para mim.

RS – O que é preciso avançar no que toca a responsabilidade social no país?

AM – A crise traz oportunidade para as empresas que ainda não modificaram (de verdade) seus paradigmas o façam. Marketing verde já é démodé, não engana mais ninguém. Ignorar princípios éticos, em tempos de crise institucional, é brincar com fogo. Acho a crise ótima para parar mesmo, repensar tudo, mudar muito e profundamente.
Então, o momento é de avançar na educação para responsabilidade social ou, o que eu prefiro, educação para a sustentabilidade, em todos os níveis – inclusive no profissional. Especialmente agora que os consagrados três eixos da sustentabilidade – o social, o ambiental e o econômico – se desdobraram na Agenda da ONU para 2030 em cinco Pilares para o Desenvolvimento Sustentável: cuidar melhor das Pessoas, das Parcerias, da Paz, da Prosperidade e do Planeta.

RS – Quais são as principais metas e desafios para os empreendimentos educacionais inovadores em 2016?
AM – Vejo pelo menos quatro desafios importantes. Primeiro, atualizar seus conceitos e, especialmente, suas práticas se alinhando à agenda planetária de desenvolvimento sustentável. Neste ponto a inovação é abarcar a sustentabilidade como elemento intrínseco à qualquer atividade educativa, não só quando o assunto é meio ambiente. Segundo, aceitar que os resultados das práticas educativas no campo socioambiental, socioafetivo e socioeconômico precisam ser tangibilizados, mensurados e divulgados com ampla transparência. Não temos tempo a perder com um antigo discurso que pregava que “educação vem a longo prazo e os resultados são subjetivos justificando ausência de demonstração irrefutável dos seus resultados. A humanidade precisa de educação efetiva, transformadora, impactante. Hoje. Agora. Sem rodeios. É difícil? Super! Porém, é o que precisa ser feito. Então, sem mais delongas, que os empreendimentos educacionais coloquem todo seu potencial intelectual e criativo para fazê-lo e prestar contas dos resultados à sociedade. Terceiro, praticar escuta ativa e empática com os estudantes, em todos os níveis. É preciso reinventar a educação praticando o ir e vir coerente com a parceria “estudante-educador” ou, o que eu prefiro, “estudante-facilitador”. Quarto, escalabilidade. As soluções precisam ser escaláveis, sem perder o potencial de se flexibilizar diante das individualidades dos estudantes. Pensando nisto tudo, a estratégia da empresa a partir de 2016 é criar programas online de desenvolvimento para empreendedores sociais, programas de educação híbrida para multiplicadores atuarem em escolas e – nosso ponto alto – um sistema de diagnóstico, avaliação e recomendação de planos de ação para projetos socioambientais. E estudar, jamais deixar de nos colocar no papel renovador de aprendiz.

RS – Qual o seu entendimento do termo ‘responsabilidade social’? Você atua no campo social desde 1982. A que atribui o surgimento desse interesse?
AM – Certa vez um estrangeiro me descreveu como uma “profissional scout”. Refletindo, acho me conceituou bem. Em 1982 comecei a atuar no terceiro setor e aprendi no escotismo que responsabilidade social é ver no próximo um irmão, um “igual”, e equilibrar a nossa liberdade com o exercício constante da nossa co-responsabilidade pelo bem comum. Partindo desta visão de mundo, a partir de 2005 apliquei essas ideias nos projetos de responsabilidade social corporativa. Faz todo sentido que as empresas, como uma simples reunião organizada de cidadãos para um fim econômico, também se enxerguem como agentes de promoção do bem comum. O principio da função social da propriedade precisa ser fortalecido sob pena de continuarmos colocando em risco a sobrevivência da espécie humana no planeta.




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