agosto 30th, 2010 Posted in Geral | No Comments »
A Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Santos faz parte de uma história que se perpetua. Ela foi a primeira entidade filantrópica do País. Confirmando a vocação para a solidariedade, no hospital também germinou o movimento comemorado em 28 de agosto, o Dia Municipal do Voluntário. Não é sem motivo que a bandeira da cidade traz a inscrição Patriam charitatem et libertatem docui : “ À Pátria ensinei a caridade e a liberdade”.
A existência da instituição foi decisiva para a colonização portuguesa. Além de garantir aos imigrantes o socorro ante a ameaça dos males tropicais, acolhia os doentes que chegavam nos navios em trânsito e os marinheiros que aportavam enfermos e abatidos, após a longa travessia do Atlântico. “Casa de Deus para os homens e porta aberta ao mar”, como a denominava seu fundador, Braz Cubas.
O fato gerou muitas versões referentes a datas, nomes, acontecimentos. Para alguns, 1543 marcou o início da construção do hospital. Para outros, foi o ano de sua inauguração, provavelmente em 1º de novembro – Dia de Todos os Santos – observado o espírito religioso daquela época, razão pela qual teria recebido a “invocação de Todos os Santos”. Posteriormente, essa invocação teria originado, de forma abreviada, o nome da povoação, consagrado pelo uso e definitivamente adotado em 1546, ano da elevação de Santos à categoria de vila.
Uma segunda explicação atribui o nome do povoado ao porto de Santos situado em Lisboa, às margens do rio Tejo, por causa da semelhança geográfica entre os dois. De acordo com uma terceira hipótese, um navegador português teria dado à entrada do porto o nome de Rio dos Santos Inocentes, em 28 de dezembro de 1515. O dia é dedicado às crianças sacrificadas por Herodes, na tentativa de matar o Jesus Menino.
Polêmicas à parte, o certo é que o hospital está geneticamente ligado ao município. Ambos tiveram como fundador Braz Cubas. Ambos nasceram no sopé do Outeiro de Santa Catarina. Crescendo com a cidade, a associação benemérita foi mudando de lugar. Em 1665 foi transferida para a atual Praça Mauá. Em 1804 ocupou o Quartel Militar, onde hoje é a Praça da República. O Hospital Provisório funcionou na atual Praça dos Andradas, por volta de 1832.
Inaugurado em 1836, o terceiro prédio sofreu várias reformas e ampliações. O suntuoso edifício da Rua São Francisco surgiu em 1903, com a fortuna legada por José Caballlero, um espanhol que deixou a instituição como herdeira de seus bens. Mas o desmoronamento do Monte Serrat, em 1928, que atingiu algumas dependências do hospital, fez a irmandade programar nova mudança.
O prédio mais recente, na avenida Dr. Cláudio Luiz da Costa nº 50, foi inaugurado oficialmente em 2 de julho de 1945. Com 100 mil metros quadrados - sendo 44 mil de área construída - possui 32 unidades de internação e 700 leitos. Existe um projeto de ampliação que prevê a construção do Centro de Convivência da Oncologia Pediátrica.
Hoje, pode-se dizer que a Santa Casa de Santos está, para a Baixada Santista, como o Hospital das Clínicas está para a Grande São Paulo. Em 2009, o hospital prestou 188.148 atendimentos ambulatoriais (SUS e convênios). “ A atuação do hospital abrange toda a região metropolitana”, sublinha o prefeito João Paulo Papa.
Pela força de seu currículo, a Santa Casa de Santos é destaque no roteiro da Linha de Ônibus Conheça Santos, que percorre os locais históricos e turísticos da cidade.
As rosas da rainha
O turista até acha engraçado. Pedir informação em Santos, equivale a receber resposta não só da pessoa indagada, mas ainda de todas as que estão em volta. Ajudar, auxiliar, colaborar são palavras corriqueiras no vocabulário santista.
Essa disposição é comprovada no livro “Santos, Berço do Voluntariado no Brasil”, com texto e pesquisa da jornalista Luciana Redá Claro. Enfocando o trabalho voluntário na cidade, pioneiro no País, a obra faz um resgate da história das instituições que se dedicam a esse serviço altruísta. E lembra sua importância em ocasiões difíceis que o município enfrentou, como epidemias e desmoronamentos de morros. Também ressalta a contribuição desses cidadãos em situações de normalidade, sempre estendendo a mão para a comunidade, afim de melhorar a qualidade de vida da população.
Atualmente, considerando-se apenas a Santa Casa, o Corpo de Voluntários compõem-se de 139 pessoas da Associação dos Voluntários da Santa Casa de Santos (Amarelinhas); 75 mulheres e 10 homens da Associação Santa Isabel de Combate ao Câncer (Rosinhas e Cavaleiros da Rosa); e 37 voluntárias da Comissão de Controle da Qualidade (CCQ).
Segundo a vice-presidente do Corpo de Voluntários, Gilda Chudin Mele, o atendimento prestado pelos 139 membros não se restringe à assistência diária. Em média, são distribuídos 3.800 sabonetes por ano para pacientes do SUS e o hospital inteiro. Além de sabonetes, no Natal são doados enxovais para os recém-nascidos e cerca de 600 a 700 presentes.
E como Santa Isabel é a padroeira da Santa Casa, no dia dedicado à santa, 02 de julho, os sabonetes e enxovais são acrescidos de rosas. “Elas são oferecidas aos conveniados do 5º e no 6º andar para lembrar o milagre”, explica a voluntária.
Conta a lenda que a rainha Isabel estava distribuindo pão e algum dinheiro pelos pobres, aproveitando a ausência do marido, o Rei D. Dinis, que a proibira de fazer tais doações. Ao voltar inesperadamente da viagem, o monarca português questionou-a sobre o que traria no volumoso regaço. Apelando a uma mentirinha santa, a rainha respondeu-lhe que eram rosas. E por milagre rosas se tornaram as oferendas, quando a rainha se viu obrigada a mostrar o que escondia.
Nascida na Espanha em 1271, Isabel fora pedida em casamento com apenas 12 anos. Após a morte do marido, rei de Portugal, em 1325, depôs a coroa real no santuário de Compostela e doou seus bens pessoais aos mais necessitados. Em seguida se retirou para o mosteiro de Clarissas de Coimbra, onde passou a viver como religiosa, sem votos. Passou o resto de seus dias em pobreza voluntária.