O papel da liderança na agenda da sustentabilidade corporativa

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Por Clarissa Lins

A adoção de práticas de sustentabilidade pressupõe a incorporação de aspectos sociais, ambientais e de governança no processo de tomada de decisão. Isso é facilmente dito – ou escrito –, mas não necessariamente absorvido no dia a dia das organizações com a mesma facilidade. Com efeito, um pressuposto básico para que a transição do modelo decisório ocorra de forma suave, porém de modo irreversível, advém da determinação da alta administração nesse sentido.

Em outras palavras, o líder da organização, seu presidente ou até mesmo o presidente do Conselho de Administração, faz toda a diferença na efetividade de implantação de um modelo de gestão baseado no tripé da sustentabilidade. Assim, quais as características desse líder?

Em primeiro lugar, deve ser uma pessoa com entusiasmo por seus ideais e crenças. Aquele que acredita no que prega o faz com muito mais consistência, vigor e capacidade de contágio daqueles que o cercam. Acaba sendo até mesmo uma fonte de referência, mas, sobretudo, de inspiração, estimulando a adesão de céticos e reticentes a eventuais mudanças nos processos e procedimentos da empresa.

Em segundo lugar, o líder entusiasta por mudanças estimula a criatividade de seus colaboradores, aceitando sugestões, criando mecanismos de inovação e de recompensa que incorporem novos critérios. Empresas mais alinhadas com a agenda da sustentabilidade, não raro, investem em pesquisa e desenvolvimento, estimulando o surgimento de novos processos e produtos. Podem ter metas, por exemplo, de criação de novos produtos ou serviços ou, ainda, estabelecerem canais de reconhecimento de novos talentos – tais como banco de ideias e práticas, prêmios, entre outros. Empresas inovadoras são, também, aquelas que se enriquecem com diferentes pontos de vista, oriundos de um ambiente de trabalho diverso.

Não consigo me lembrar de um líder em sustentabilidade que não pense, de forma estratégica, no longo prazo. Apesar das organizações terem seu desempenho avaliado diariamente, tendo de prestar contas aos acionistas e investidores dos seus resultados com foco no curto prazo, o líder consegue mostrar o valor de se pensar os negócios de forma mais ampla, em conexão com os desafios globais. Afinal de contas, toda organização está inserida em um contexto global cujos contornos a influenciam e que não devem, portanto, ser negligenciados. Uma empresa de óleo e gás pode pensar no avanço de seus limites exploratórios sem imaginar eventuais mudanças no comportamento do consumidor, com impacto na demanda por combustível fóssil? Uma empresa de embalagens pode pensar em aumento de oferta sem oferecer soluções de reaproveitamento das embalagens antigas e reciclagem? Tudo indica que não…

Por estar, muitas vezes, à frente de seu tempo, o líder em sustentabilidade precisa ter habilidade política para não caminhar só. Deve saber costurar alianças, tanto junto aos seus pares e subordinados quanto às demais partes interessadas. Novamente, parte-se do pressuposto de que a organização está inserida em um contexto mais amplo e que o líder percebe o valor de engajar-se com os diversos stakeholders influenciados ou impactados pelas atividades de sua empresa. Assim sendo, esse líder aloca seu tempo e suas energias não apenas em assuntos internos da companhia, mas na articulação externa, ampliando, dessa forma, a visibilidade de sua atuação para além das unidades operacionais ou administrativas.

A consistência é mais uma característica de um líder em sustentabilidade – consistência no sentido de levar seu discurso para a prática. Nesse contexto, refiro-me à necessária adaptação das peças fundamentais da empresa ao conceito do desenvolvimento sustentável: assim, o líder precisa garantir que (I) Missão, Visão, Valores e planejamento estratégico incorporam a sustentabilidade; (II) as políticas corporativas afetas ao tema estão clara e amplamente definidas, para dentro e fora da organização; (III) os sistemas de gestão dão conta da implantação das políticas e compromissos assumidos, lastreados em sólido modelo de governança corporativa; (IV) os sistemas de aferição de desempenho incorporam as métricas necessárias, com indicadores bem definidos e apuráveis; (V) a remuneração variável de todos os colaboradores inclui critérios de sustentabilidade. Cumprida essa vasta lista de tarefas, o líder terá dado as condições para que a organização se apodere da agenda da sustentabilidade, tornando-a mais institucional e menos pessoal.

Dito isso, a agenda corporativa não se encerra aqui, pois o líder em sustentabilidade entende o valor dos compromissos assumidos perante a sociedade, bem como a transparência. Prestar contas torna-se um corolário natural, seja por meio de aparições públicas, seja por meio de relatos padrões – sendo o Relatório de Sustentabilidade o mais comumente usado hoje -, de diálogos com públicos específicos ou da utilização das mídias sociais. Não raro, o líder desafia sua própria empresa e a estimula a ter a coragem de assumir metas – quantitativas, de fácil entendimento e com prazo definido. Nada melhor para ser ainda mais crível!

Por fim, diria que o líder em sustentabilidade costuma ser carismático, seja porque traz em si uma boa dose de otimismo – por acreditar que é possível conciliar as ambições de um mundo em crescimento com os limites naturais do nosso planeta -, seja porque é uma pessoa que tem a energia daqueles que fazem acontecer. Tenho a convicção de que nosso País abriga um bom punhado desses líderes!


Clarissa Lins é diretora executiva da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS). O artigo foi publicado na Plataforma Liderança Sustentável, disponível no site Ideia Sustentável. Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável - Site: www.fbds.org.br

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